Mais uma morte. Mais uma vida que se desfez em segundos. Mais um corpo que entregou à terra tantas histórias.
Aqui, intacta e por vezes interrompida pela falta de ar, reflito um pouco mais. Como somos nada... como somos leves... como somos vencidos pela tortura do inevitável. Como somos estúpidos ao ponto de esperarmos pelo amanhã para tudo, e entregarmos ao impossível os desejos mais ousados.
Ela deixou tantos planos por cumprir. Deixou os ponteiros do relógio a rirem-se da agenda incompleta que ficou na gaveta bolorenta. Ela... (falta de ar) ela fez-me deitar o corpo sob a cama irrequieta e fechar os olhos na imensidão de tudo aquilo que me preenche. Estou vazia. Quase nada em mim, afinal, tem morada certa. Os sonhos estão parados, os desejos desfalecem nas expectativas, as pernas tremem pela falta de direcção, e o coração dói com a ausência incompreendida de uma alma desejada. Destruo tudo. Salto por cima do que não presta, do que não faz falta, do que devia ser mas não é. Conheço a solidão ao pormenor para lhe encontrar as fraquezas. Dou-lhe a guerra e venço. Embalo os sonhos inconformados e ponho-os na terra à qual pertenço. Convenço-me daquilo que sou capaz e, de repente, algo novo está à minha frente. Olá vida, prazer em conhecer-te. Sabes que levei algum tempo a compreender-te. Venho habitar por inteiro na tua casa, beber-te das mãos o que cura a minha asa. Há tanta gente aqui, sorrisos sinceros que me amam, e de repente dei por ti enquanto outras vozes me chamam. Diz-me quem és, dá-me um abraço forte, desfaço os pontos cardeais, faço de ti o meu norte. Não é sorte nem passaporte, é a força de vencer. É querer-te longe da morte, da vontade de morrer. És o amor, a felicidade, o pôr do sol no deserto. Sou a distância que percorres para me dizeres que está certo, que estou perto da próxima paragem, e a viagem vai prosseguir num rumo aberto, sem céu encoberto que me limite a passagem. Miragem ou não, és quem me leva em frente, quem me aperta a mão, quem me abriga a mente, quem me dá, por inteiro, o coração.