quarta-feira, 26 de maio de 2010


Seria uma longa caminhada pelo deserto da vida...

... e ele prometeu-lhe que nos momentos mais difíceis a protegeria e estaria sempre do seu lado.
Muito tempo se passou e ela decide olhar para trás. Depois, furiosa, disse-lhe:
- Ouve lá, prometeste que estarias sempre do meu lado e me protegerias, mas em todos os maus momentos só vejo duas pegadas. Não há sinais da tua presença ao meu lado.

Ele deixou cair os braços, virou costas e partiu sem dizer uma palavra. E ela ficou sem perceber que em todos os maus momentos ele a carregou nos seus braços.

Preciso tanto...

... que inclines para trás a cabeça e que deixes que a água da chuva te lave a cara e a vida.
... que te descalces sob uma poça de lama e que sintas na pele a maciez do toque da natureza.
... que passeies as mãos pelas feições do rosto e que sintas na boca a felicidade de um sorriso inteiro.
... que relaxes na sombra de uma árvore e que, de olhos fechados, te entregues ao prazer de uma paz perfeita.
... que te ames. Que te vejas e te sorrias. Que te cuides e te mimes. Que te enalteças.

Preciso tanto que existas...que existas muito.

terça-feira, 18 de maio de 2010

“Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre o que é viver melhor
Naquela mesa ele contava estórias
E hoje na memória eu guardo e sei de cor
Naquela mesa ele juntava a gente
E contava contente o que fez de manhã
E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho, eu fiquei seu fã
Eu não sabia que doia tanto
Uma mesa no canto, uma casa e um jardim
Se eu soubesse quanto dói a vida
Essa dor tão doída não doía assim
Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala no seu bandolim
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim...”

segunda-feira, 17 de maio de 2010

sábado, 8 de maio de 2010

Uma palavra. Disse-a. Amo-te - uma palavra breve. Quantos milhões de palavras eu disse durante a vida. E ouvi. E pensei. Tudo se desfez. Palavras sem inteira significação em si, o professor devia ter razão. Palavras que remetiam umas para as outras e se encostavam umas às outras para se aguentarem na sua rede aérea de sons. Mas houve uma palavra - meu Deus. Uma palavra que eu disse e repercutiu em ti, palavra cheia, quente de sangue, palavra vinda das vísceras, da minha vida inteira, do universo que nela se conglomerava, palavra total. Todas as outras palavras estavam a mais e dispensavam-se e eram uma articulação ridícula de sons e mobilizavam apenas a parte mecânica de mim, a parte frágil e vã. Palavra absoluta no entendimento profundo do meu olhar no teu, palavra infinita como o verbo divino. Recordo-a agora - onde está? Como se desfez? Ou não desfez mas se alterou e resfriou e absorveu apenas a fracção de mim onde estava a ternura triste, o conforto humilde, a compaixão. Não haverá então uma palavra que perdure e me exprima todo para a vida inteira? E não deixe de mim um recanto oculto que não venha à sua chamada e vibre nela desde os mais finos filamentos de si? Uma palavra. Recupero-a agora na minha imaginação doente. Amo-te. Na intimidade exclusiva e ciumenta do nosso olhar mútuo e encantado. Fecha-nos o lençol na claridade difusa do amanhecer, estás perto de mim no intocável da tua doçura. Frágil de névoa. Fímbria de sorriso e de receio, de pavor, no meu olhar embevecido. Uma palavra. A primeira que em toda a minha vida me esgotou o ser. A que foi tão completa e absorvente, que tudo o mais foi um excesso na criação. Deus esgotou em mim, na minha boca, todo o prodígio do seu poder. Ao princípio era a palavra. Eu a soube. E nada mais houve depois dela.

Vergílio Ferreira - "Para Sempre"

sexta-feira, 7 de maio de 2010


“É preciso ter asas quando se ama o abismo.”

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Culto

Grito (8)

Mais uma morte. Mais uma vida que se desfez em segundos. Mais um corpo que entregou à terra tantas histórias.
Aqui, intacta e por vezes interrompida pela falta de ar, reflito um pouco mais. Como somos nada... como somos leves... como somos vencidos pela tortura do inevitável. Como somos estúpidos ao ponto de esperarmos pelo amanhã para tudo, e entregarmos ao impossível os desejos mais ousados.
Ela deixou tantos planos por cumprir. Deixou os ponteiros do relógio a rirem-se da agenda incompleta que ficou na gaveta bolorenta. Ela... (falta de ar) ela fez-me deitar o corpo sob a cama irrequieta e fechar os olhos na imensidão de tudo aquilo que me preenche. Estou vazia. Quase nada em mim, afinal, tem morada certa. Os sonhos estão parados, os desejos desfalecem nas expectativas, as pernas tremem pela falta de direcção, e o coração dói com a ausência incompreendida de uma alma desejada. Destruo tudo. Salto por cima do que não presta, do que não faz falta, do que devia ser mas não é. Conheço a solidão ao pormenor para lhe encontrar as fraquezas. Dou-lhe a guerra e venço. Embalo os sonhos inconformados e ponho-os na terra à qual pertenço. Convenço-me daquilo que sou capaz e, de repente, algo novo está à minha frente. Olá vida, prazer em conhecer-te. Sabes que levei algum tempo a compreender-te. Venho habitar por inteiro na tua casa, beber-te das mãos o que cura a minha asa. Há tanta gente aqui, sorrisos sinceros que me amam, e de repente dei por ti enquanto outras vozes me chamam. Diz-me quem és, dá-me um abraço forte, desfaço os pontos cardeais, faço de ti o meu norte. Não é sorte nem passaporte, é a força de vencer. É querer-te longe da morte, da vontade de morrer. És o amor, a felicidade, o pôr do sol no deserto. Sou a distância que percorres para me dizeres que está certo, que estou perto da próxima paragem, e a viagem vai prosseguir num rumo aberto, sem céu encoberto que me limite a passagem. Miragem ou não, és quem me leva em frente, quem me aperta a mão, quem me abriga a mente, quem me dá, por inteiro, o coração.

segunda-feira, 3 de maio de 2010



A ausência da tua voz obriga-me a pele a roçar no desassossego de um lugar estranho. Queria ler-te nos olhos a certeza dos dias. Flutuarmos na precisão de um abraço arrepiado e deixar-me levar pela força que me prende ao teu viver.
Se há coisa que me perturba na vida é o facto de as opções que não tomamos ser uma opção. Nunca conseguimos afastarmo-nos do ciclo de vivências e parar por instantes a existência das coisas. Deixa-me tão exausta a presença de vida nas acções desmaiadas…

domingo, 2 de maio de 2010

O amor são gestos que engulo à força e que me devoram as margens do coração aflito. As palavras que abafo e que ficam contidas no olhar desviado. Os momentos que escondo em sonhos guardados no balanço do tempo. Sou eu quebrada, inclinada sob o desejo de subir às nuvens num balão incontrolável.