segunda-feira, 30 de agosto de 2010



Hoje descobri que a minha vida só melhora se eu quiser. Que posso sorrir debaixo de chuva e aproveitar o sol para me reinventar. Descobri que a consciência me prega ao chão e que a ousadia me faz voar. Que o olhar pode dizer a verdade e que o gesto pode reforçá-la. Que as horas passam devagar para quem desmaia no tempo e que os momentos são apressadamente breves para quem respira com intensidade. Descobri que as minhas pernas podem dar voltas ao mundo e que os meus pensamentos podem transformar mentalidades. Que a vontade de vencer me faz crescer e que a vontade de ter vontade me faz morrer. Descobri que o devaneio alimenta o amor e que a lucidez me leva à loucura. Que a saúde provoca sorrisos e que a doença traz até mim os mais sinceros. Que o mais importante é amar-me e saber que vou caber sempre nos meus braços. Descobri que devo olhar mais vezes o pôr-do-sol e que o seu nascer me traz novas conquistas. Que acreditar me dá segurança e que duvidar me faz chegar mais alto. Que nas minhas mãos cabem muitas vidas e que na minha vida cabem poucas mãos. Descobri que ter sonhos me faz avançar e que fazer planos me limita o trajecto. Que não devo confiar em todos os que me sorriem e que devo dar valor aos que me fazem sorrir. Que pensar sempre nos outros me faz deixar de ser e que esquecer-me dos meus me faz deixar de os ter. Descobri que a felicidade está tão perto e que o coração me leva para tão longe…

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Chamem-me louca

Ao meu Bem-Ser,

O relógio não parou desde que partiste. Manteve, impávido, aquele “tic-tac” que soma segundos e engrossa saudades.
Avolumam-se as horas, engrandecem os dias… e cimentam-se oito anos em que a tua ausência tem um peso cada vez maior.
No silêncio da casa, revejo-te no álbum de memórias que construímos em três décadas de amor e, ao pôr-do-sol, ainda te ouço sussurrar o meu nome.
Não esqueço, meu Bem-Ser, que seremos sempre um… mesmo que só um possa dizê-lo.


Esther


Jornal "A Aurora do Lima"
in Secção de Necrologia
18 Agosto 2010

terça-feira, 24 de agosto de 2010

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Eu só quero que pressintas o impacto dos meus ideais
Que não me mintas nem sintas medo dos temporais
Pelas minhas cordas vocais só passa o ar da verdade
Do fruto que tens em mente não esperes ter só metade
Ergue a cabeça e entra no ringue, exercita a tua mente
Vais reparar, sem abrandar, que ela te mantém na frente
Não é falta de humildade nem ambição desmedida
Se não lutas e te conformas então vais pagar com a vida
“Por morrer uma andorinha não acaba a primavera”
Continua a caminhar e verás o que te espera
Não é quimera nem devaneio, escala a montanha sem medo
Desafia a lei do conformismo que só sabe apontar o dedo
O piso só faz cair quem anda a passear distraído
Tantos andam a dormir mais do que um recém-nascido
Entra-lhes a 100 no ouvido o zumbido da sociedade
E o cérebro já comido faz da ilusão, realidade
O cupido da sonolência acerta no alvo em cheio
Falam de combater a demência mas não passa de paleio
O mundo parece um recreio cheio de armadilhas escondidas
E no meio do sorteio crescem ideias aborrecidas
Uns dão corda à mesquinhez e sobem ao palco atordoados
Outros falam mal português e acham-se poetas consagrados
Por isso tens de perceber que é uma batalha constante
Seguir em frente confiante neste ambiente alucinante
Mas num instante vais entender que basta apenas teres presente
Que o sucesso vem do progresso de uma mente diferente.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Parte VII

As lágrimas fizeram a chávena de chá entornar. Porra! Sinto uma nuvem nos olhos que me pesa nas pálpebras. Quero voltar a dormir mas ele limpou as migalhas, e arrependo-me do facto de estar a caminho. Abre a porta e fala, fala, fala. Mas não compreendo nada. Não! Pára! O que fizeste? Porque estás assim vestido? Onde puseste as migalhas? Não percebes que me afectam as mudanças? Não sabes que preciso que as coisas não mudem de lugar e que as sombras nas paredes sejam sempre as mesmas? Não quero que mudes de voz nem que a tua roupa varie muito. Estás a matar-me! Sai.
- Sim, estou mais calma.
- Não, não preciso de nada.
- Vou desligar, tenho outra chamada em linha.

(...)

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Parte VI

Se me amas, estás doente porque não sou nada. Por favor, despe-me e olha para mim. Enternecido. Não passes sem mim para além daquela porta. Olha-me enquanto me aqueces o chá.
- Não vás! Sopra… está quente.
Sopra até eu conseguir beber. Quero que me veja bebê-lo. Não vás. A porta bate.
- Sim, estou bem.
- Não, hoje não chorei.
E desligo com a pressa de que perceba e se sinta culpado. Só queria encostar-me a um canto e chorar tão alto que me ouvisse e viesse ter comigo. Me pegasse ao colo e me beijasse a testa. Só queria agarrar-me às suas pernas e encharcar-lhe as calças. Deixar lá todos os monstros que sou.
Toca de novo o telefone. Atendo e choro fora de tempo. Pede que me acalme e diz que está a caminho. Vem depressa, como se me pudesse amar toda.

(...)

sábado, 7 de agosto de 2010

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Parte V

Procuro as bolachas na cozinha arrumada e arrasto-me até ao quarto. Forço-me a comer e recolho-me nos lençóis. Afinal até gosto deles lavados e agradeço a Deus pelo seu empenho. Ao arrastar o corpo para me aconchegar, sinto as migalhas a arranharem-me a pele. Gosto, fazem-me sentir viva. Quase adormecida, sinto-o a chegar. Semicerro os olhos e vejo-o abrir a porta do quarto tão devagar que o movimento parece causado por uma brisa suave. Fita-me delicadamente. Tenho saudades de o ver sorrir. Aproxima-se e cola um post-it no pacote das bolachas. Fecho os olhos e adormeço. Uma grande festa! A casa era enorme e cheia de gente feliz. Tinha de andar em bico de pés porque não podiam dar pela minha presença. Não sei porquê mas sabia que me expulsariam se me vissem. Estava exausta e ofegante. Nua, desesperava-me para apanhar a roupa que ia crescendo no soalho brilhante. Vestia-me apressadamente mas ela desaparecia no corpo. Esticava os membros exaustos para agarrar uma e outra peça mas, depois de tanto esforço, simplesmente se desfazia e parecia mergulhar pelas frestas da minha pele. E quanto mais isso acontecia, mais eu inchava, e com mais dificuldade me serviam as peças. Mergulhavam todas no meu corpo e senti-me sufocar. Inchei, inchei, inchei, até que. “Voltei! =)”, está escrito no post-it. Claro que voltou. Volta sempre. E volta sempre tão inteiro. Mistura-se em mim sem medo de morrer, de matar, ou de perecermos os dois. Sabem aqueles dias que todos temos, em que nos entregamos a uma árvore, ao céu, ou à formiga que passa? Ele assim se esquecia de tudo à sua volta para somente me absorver.

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quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Parte IV

Quando acordei, assaltada por um arrepio frio, reparei na janela aberta e no dia cinzento que se enamorava das frestas da persiana mal corrida. Ele deixou um bilhete na mesa de centro: “Volto amanhã”. Estranhei o gesto pois sabia que voltava sempre. Não o senti partir, e temo que esse “amanhã” seja outro que não hoje, longe demais. Porquê o bilhete? Achar-me-ia demasiado perdida para acreditar que voltaria? Deixar-mo-ia para se obrigar a ver-me, de novo, os olhos lamacentos e as mãos fechadas? Pousei o bilhete lentamente como se tivesse medo de o acordar, e vi o meu reflexo no vidro da mesa: tenho o cabelo despenteado. E acrescentei no bilhete: “Fazes-me falta”. Não estou louca mas sinto-me sê-lo, agora que vejo o chão da casa livre de porcarias e os lençóis do quarto me cheiram a sabão. Antes de partir deve ter apanhado a roupa espalhada e arrependo-me de não ter sido eu a apanhar as cuecas sujas de sangue. Sinto-me mesmo a enlouquecer. Há agora um grande contraste com o estrago dentro de mim. O aspecto limpo e arrumado assombra-me o estado de espírito. Não me sinto encaixar na minha casa e transbordo de transtorno. Ele não devia…

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quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Parte III

“Carpe Diem” amargava-me os sentidos. Sempre achara que temos tantos dias que não faz mal escapar-nos um de vez em quando. Farto-me dos seus sermões mas sinto a sua falta quando não está presente para me aquecer o chá. Os olhos abrem-se, o banho corre. Sufoco ao sentir os poros alagados e, numa expressão angustiada, inalo o ar que entra na boca por entre os pingos de água. Ele passa o sabonete pelo avesso das minhas mãos e eu fecho-as, como faço sempre que me sinto envergonhada. Diz-me para parar de enganar a natureza, baptizando-lhe os medos, e sinto os meus olhos a incharem. Larga o sabonete e abraça-me, e eu deleito-me na precisão de, como nas pausas, ele me descobre. Enrola-me numa toalha e pergunta-me pelos pijamas lavados. Ouço os seus passos apressados tropeçarem na imundice que pesa no chão sujo e chega com uma roupa a cheirar a fresco. Encosta a porta e afasta-se. Sabe sempre levar-me ao peito a vontade de respirar sozinha, de olhos abertos, um pouco mais. Embrulhada no sofá, sinto-o a entrar na sala. Traz-me o chá. E penteia-me o cabelo. Acho que o faz porque me acalma, ou por ser o único momento em que me entrego feliz.

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terça-feira, 3 de agosto de 2010

Parte II

Arrasto as costas pela parede e deixo os joelhos tocarem no queixo, enquanto as mãos devoram os dedos dos pés e o corpo balança. “- O que precisas para seres feliz?” Respondi-lhe com meia hora de soluços. Nunca ninguém se tinha preocupado com isso (nem mesmo eu). Quando acordei, ainda no chão, tinha o seu sorriso meigo junto à minha cara. Ficava tão impressionada com aquela entrega que preferi nem me mexer com medo de a estragar.
Costumava convencer-me a ir correr pelo paredão e, sempre que me via a ficar para trás, esperava, dizendo, por amor, que abrandara por cansaço. E eu fingia acreditar para não intimidar aquela estima. Cansada, bastava deixar cair o corpo no sofá para encontrar o aconchego dos seus braços. Ele ficava, só para me ver dormir. Nunca me achou louca por escrever nos cortinados. Sabia que, nos dias de sol, as paredes se enchiam de palavras gigantes que me faziam sentir bem, por saber que os meus ecos cresciam também noutro lugar. Penteava-me o cabelo e obrigava-me a lavar a cara. Não comentava os pés no tablier e, no sinal vermelho, esticava o braço para a pala de sol do meu lugar e abria o espelho. Lembro-me de me arrastar pelo banco abaixo para não me arrepender de ter dado passos para lá da porta de casa.

(...)

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Parte I

Deixei a terapia por não suportar o tom de voz de “vizinha bem-disposta” da mulher que me invadia a vida. “-Eu estou aqui. – Faz-me sentir ainda mais louca. Como quer que acredite que pensa em mim quando, na realidade, não posso estar consigo quando preciso? Está aqui por dinheiro. Deve ter a sua mansão branca, o cão que a acompanha enquanto faz bolos para a chegada dos filhos, janta sempre à mesma hora e vai ao cinema com o seu marido para arejar, só porque é saudável. A sua vida deve ser tão perfeita que, de vez em quando, até tem os seus problemas. O que faço eu aqui? Nunca caberei na sua vida. Deve estar treinada para se distanciar. Sabe o que tenho feito, sabe? Durmo! Não tomo banho há 3 dias e quando me visitam, lavo-me aos bocados, se tiver forças. O meu pijama tem nódoas dos tempos em que me alimentava e vive colado ao meu corpo pelo suor do vazio. E sabe o que vou fazer a seguir? Vou bater com a porta que abafa este consultório infernal, entrar no carro e só parar na porta do prédio. Subirei pelas escadas porque a merda do elevador está avariado e, cheia de pena de mim, abrirei a porta aos vómitos e correrei para a retrete. Com ainda mais pena, desmaiarei o corpo sob o chão gelado e adormecerei imunda.”

(...)

domingo, 1 de agosto de 2010