segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

quarta-feira, 10 de novembro de 2010



Vem a noite escondida por entre estrelas
Que se prendem a um olhar demais distante
E dá conta que já não mais sabe vê-las
Sem a revolta com a força de um instante
Será do frio intenso as mãos geladas
Ou da falta do calor de quem eu quero
Que me faz mantê-las sempre, assim, fechadas
Denunciando um tão calado desespero
A luz já se perde no horizonte
E cresce a saudade que se tem
Os dias já só desmaiam defronte
Da lembrança do sabor de alguém…

sexta-feira, 5 de novembro de 2010


Eu sei que custa navegar em território desconhecido
Presta atenção ao que te digo, aqui basta um bom ouvido
Pra ti faz algum sentido? A minha mente é complexa
Até eu fico perplexa quando é tema de conversa
Muitas vezes sinto-me ser carta fora do baralho
Mas a culpa será minha ou do sistema do c***lho?
Ouço o soalho a estalar cada vez que entro em cena
Fujo até perder o ar e arranjo outro problema
Tenho a mania das limpezas: mantenho a mente arrumada
Perco tempo a seleccionar e acredita, fico cansada
Não sei se é vício, obcessão, mas passo a vida a separar
Bons momentos dos que não são, e dos que não quero lembrar
No lugar da calmaria tenho um caixote vazio
É a parte mais sombria deste terreno baldio
Acaricio a desgraça, desvio-me do rumo certo
Já não sei o que se passa pr`além do céu encoberto
O meu lugar ficou deserto desde o último suspiro
Mas tudo fica em aberto, afinal, ainda respiro.

terça-feira, 2 de novembro de 2010




"Somos o sítio que nos faz falta."

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

De Mestre!

Leve como pena, a luz apagada, a incrível doçura do teu corpo. Frágil minúsculo na ponta dos dedos da minha mão. Apanhar-te toda , amachucada toda na palma da minha mão. Friso subtil dos meus nervos, ah, o veludo do teu calor. Carne virgem, a seda da tua pele, os teus seios ocultos como flores de estufa. Tanto como te sonhei e imaginei no meu querer de crise e estava agora ali total, tinha medo de te tocar, destruir. Tão melindrosa evanescente. Então devagar. Queria ter-te toda e parecia-me que alguma coisa de ti me fugia e não entrava no domínio da minha posse, da minha absorção. As minhas mãos pelo teu corpo franzino, na face, nos seios, nas pernas de criança. Estavas em silêncio, respiravas alterada no meu ombro, ave trémula. Uma serrilha fina, subtil ácido na fímbria dos meus nervos, não tinhas uma palavra, respiravas fechada em ti. Fechada, secreta, ajustada cerradamente, pequenina dócil - desvendar-te. Tenho dores em todo o corpo, nas articulações. Tremo todo eu no mistério do teu corpo guardado desde a eternidade para mim. Tremo eu todo na impossível inverosímil presença da totalidade cálida de ti. Febre que grita em cada átomo de mim, grito na profundidade das vísceras ao excesso do meu delírio, tu quieta à minha profanação. Corpo suave na mistura intensa da nossa mútua fecundidade, plasma ígneo de nós e tu subtil sem a força que aguente a minha abundância poderosa. Leve apenas, ave ferida, submisso fino um queixume, toda a tua pessoa furtiva, todo o fugitivo de ti, toda tua pessoa arisca e graciosa fechada agora em mim, no meu excesso a transbordar. E aí te perdes longamente, aí te perco, até que o mundo renasceu e tu no centro e ao pé de mim. Rapidamente então ergueste-te, eu ouvia-te ali ao pé na purificação de ti, renascida, purificada e imediatamente adormeceste. E ergui-me eu também, vim encontrar-te na distância aérea dos anjos e das crianças. Só eu não dormia, pregado na noite como uma estrela. E de mim a ti uma bênção que eu não tinha mas sentia num impulso a um sorriso, a uma pacificação que se expandia de mim e ia até aos limites da vida e te inundava de uma imponderável ternura. Assim estive longo tempo, mas eu precisava tanto de te tocar. Recuperar a tua realidade inacreditável, a tua presença no centro do universo. A mão suave na fronte, o lume de um meu dedo na fímbria do teu corpo. A respiração subtil da minha boca na tua face. O halo fugidio da minha presença na tua - e tu rodaste sobre ti, um apagado ciciar da tua boca. Pregado na noite como uma vigília, irradiada de uma luz viva e trémula - dorme. Que é que eu amo em ti? Não é o teu corpo, não é o teu espírito, mas a transfiguração de um pelo outro, a transcendência da tua carne frágil, a abordagem de quem tu és no mais profundo de ti, na posse compacta de toda tu, no espasmo de um punho cerrado - dorme. Não posso dormir, não quero. Como perder esta hora máxima de ser, de tocar toda a tua realidade secreta, drasticamente separada, segregada da minha ânsia em agonia? Porque tu eras para mim o puro irreal e imaginário, o subtil incorpóreo, a pura iluminação sem consistência, a aparência do não-ser, a terrível beleza intocável, a graça aérea imaterial. E agora estavas ao pé de mim, e eu estendo a mão devagar para condensar em realidade a tua imaterialização. Como dormir e perder-te e acordar depois - tu não estares aqui e ser tudo fantástico de impossível? Estendo a minha mão, és tu real na febre da minha mão. Então rolaste de novo sobre ti e eu tive medo. Medo do meu excesso, na aflição da minha angústia. Tremente, perdido(...)




Vergílio Ferreira - "Para sempre"

sábado, 25 de setembro de 2010

Nunca pensei chegar onde cheguei
As minhas lutas diárias são tantas, que já nem sei
Porque é que ainda aqui estou, porque ainda respiro
Sinto o que de mim restou se repetir contra o tiro
Adormeço a pedir que seja o fim, que tudo acabe
Mas amanhece e acordo contra minha vontade
A cada dia que passa, o desafio é maior
Tem asas feitas de desgraça o meu anjo protector
O corpo de tão dorido parece querer quebrar
Deixo-o cair sem sentido sempre no mesmo lugar
Custa-me tanto passar para além da porta da rua
As faces do meu mal-estar são mais que as faces da lua
E não recua, não tenho paz, tropeço todos os dias
Numa ilusão que se desfaz e que me traz avarias
Quase irreconhecível, fito no espelho o meu reflexo
Como um som analfabeto de palavras sem qualquer nexo
Tu ficarias perplexo se visses o interior
Deste eu que já não conheço, feito de um pó ditador
O que é feito da alegria no sorriso sincero?
Pr`onde fugiu a magia do mundo que já não quero?
Desespero na solidão, afasto quem quer ficar
Basta um aperto de mão e sinto a falta do ar
Todos ficam a lamentar o que foi feito do ser de outrora
E pra não me verem chorar, afasto-me e vou embora.

terça-feira, 21 de setembro de 2010


(8) Don't waste your tears on what has come
Or what must be
Use your efforts toward a cause
And what you'll see
Things are better
When you're stronger and happy... (8)

domingo, 19 de setembro de 2010

Mais-que-perfeito

"Gostava de poder dividir com uma faca esse sofrimento e ajudar a sentir metade dele, porque estou mais habituado do que tu. Queria transformar os teus dias em meio horríveis ao dizer-te que sei o que estás a passar. Também eu já vagueei por essas horas fora com um nó na garganta e por esses locais de todos os dias como um cão envenenado pelo dono, como se o ar não entrasse no peito por mais que a boca o sugue com suspiros, e uma facada invadisse a barriga por cada vez que o pensamento teimasse em invadir aquele quarto escuro de recordações.
Sim, também já me aconteceu e por isso tudo o que eu queria era que não te acontecesse a ti também. Esgatanhei durante muito tempo as paredes do poço em que caí em busca de uma saída rápida que não existe.Depois, percebi que era mergulhando mais fundo na água salobra que descobriria um caminho. Não é fácil, está frio e escuro, e vários perigos se escondem. Nesse caminho nem sempre se tomam as opções mais acertadas - e não será essa a essência desse caminho? - porque no desespero de nos sentirmos bem vamos a correr chocar contra qualquer coisa que brilhe um pouco mais do que um basalto. E quase nada do que brilha é ouro, muito menos no mundo agitado de memórias.Se eu pudesse, descrevia-te o processo e desenhava-te um mapa do percurso que fiz. Poupava-te tempo e podias arrepiar caminho. Mas não posso, porque também ando à procura dele outra vez, e porque... bem, porque seria sempre o meu caminho, e não o teu.Certo é que vais andar durante muito tempo. Durante tanto tempo que até te vais esquecer e lembrar e tornar a esquecer para recordar outra vez onde estavas antes de caires no buraco, e a respectiva queda.E irás entretanto comparar cada coisa e pessoa que encontrares as que viste nos nos dias luminosos que viveste outrora, e perderás oportunidades que nunca perderias se fosses a pessoa que eras antes.


Vais odiar-te por isso.

Mas um dia, de um momento para o outro, sem que nada o faça esperar, vais sentir uma calma estranha. Virás à superfície, e não te garanto que o sol brilhe como antes, mas estará uma temperatura agradável, não choverá, e sentir-te-ás em paz contigo.Gostava de te transportar para esse dia com um abraço. E queria mesmo alertar-te para os perigos do tempo que passa e se confirma como o melhor photoshop que existe. Transforma o menos mau do passado no melhor que poderia acontecer-te no futuro, e nunca é assim que as coisas funcionam. É preciso tirar esses fotofilmes da cabeça e gravar novos, com outros temas, outras pessoas, outros locais, com o coração que tens agora e não com aquele que tinhas antes, porque ninguém te vai devolver o que ofereceste por muito que ambos queiram. Por isso, não desejes ter a tua vida toda de volta de repente. Mas, peço-te, não te convenças de que estás perante um nó górdio - impossível de desatar.
Como disseste um dia - e quase todas as pessoas no mundo desenvolvido devem ter dito isso um dia, perdoa-me a sinceridade - estas coisas fazem morrer dentro de nós alguma coisa. Fazem perder a esperança na natureza humana, no amor puro, nos contos de fadas, no para sempre e no nunca, na inexistência de impossíveis. Em troca, recebes medo, desventura, incapacidade de acreditar, desconfiança por mais que queiras confiar, desapego por mais que te queiras dedicar.
Lembras-te? A pior coisa que pode acontecer é a tua felicidade depender de outra pessoa. Talvez seja verdade, não o sei. Já acreditei e desacreditei e tornei a acreditar e tornei a desacreditar nisso. Não te posso ajudar com a resposta, talvez por ter escolhido ser agnóstico em relação ao amor. Na verdade, talvez tudo mude, talvez nada seja para sempre e só nos reste aproveitar enquanto a chama vive, e não nos arrependermos de cada vez que ela se apague mesmo que a protejamos com as mãos das brisas que sopram. O preço a pagar é o risco de morrer mais um bocado de cada vez que decidires fazê-lo.
Utiliza agora toda a coragem e força que mostraste antes, e usa-as todas para ti, não apenas metade. Fá-lo por ti. É a tua melhor opção, ainda que tivesses outras.

Sim, virás à superficie. Respirarás de alívio novamente, e nem será de alívio porque quando o fizeres em paz não será uma coisa brusca, como no acordar de um sonho mau. Viverás confortável na maior parte do tempo, e cada vez mais de quando em quando, em dias de chuva, lembrar-te-ás do que agora te destruiu por breves momentos, com uma tristeza bonita e controlada, sim, mas sem angústia.

E aí saberás que tens a tua vida de volta.

Já me aconteceu. Já lá cheguei uma vez, com batota ou sem ela, com tudo o que me custou e todo o tempo que demorei. E chegarei novamente, e sempre contigo por perto, portanto tu também. E isso to escrevo, to digo, to prometo e garanto.

E eu, como agora, estarei contigo para ficar também feliz com a tua reconquista."

sábado, 18 de setembro de 2010

sábado, 11 de setembro de 2010


Entreguei-me ao pulsar quente de uma maré que me engomou os sentidos. E vi-me nascer depois de mim com um coração que me coube intacto nas mãos.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

"Antigamente, eu pensava que haviam pessoas boas e pessoas más. Hoje, sei que há lugares de sombra. E como é bom saber isso."

José Carlos Malato
6 Setembro 2010

segunda-feira, 30 de agosto de 2010



Hoje descobri que a minha vida só melhora se eu quiser. Que posso sorrir debaixo de chuva e aproveitar o sol para me reinventar. Descobri que a consciência me prega ao chão e que a ousadia me faz voar. Que o olhar pode dizer a verdade e que o gesto pode reforçá-la. Que as horas passam devagar para quem desmaia no tempo e que os momentos são apressadamente breves para quem respira com intensidade. Descobri que as minhas pernas podem dar voltas ao mundo e que os meus pensamentos podem transformar mentalidades. Que a vontade de vencer me faz crescer e que a vontade de ter vontade me faz morrer. Descobri que o devaneio alimenta o amor e que a lucidez me leva à loucura. Que a saúde provoca sorrisos e que a doença traz até mim os mais sinceros. Que o mais importante é amar-me e saber que vou caber sempre nos meus braços. Descobri que devo olhar mais vezes o pôr-do-sol e que o seu nascer me traz novas conquistas. Que acreditar me dá segurança e que duvidar me faz chegar mais alto. Que nas minhas mãos cabem muitas vidas e que na minha vida cabem poucas mãos. Descobri que ter sonhos me faz avançar e que fazer planos me limita o trajecto. Que não devo confiar em todos os que me sorriem e que devo dar valor aos que me fazem sorrir. Que pensar sempre nos outros me faz deixar de ser e que esquecer-me dos meus me faz deixar de os ter. Descobri que a felicidade está tão perto e que o coração me leva para tão longe…

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Chamem-me louca

Ao meu Bem-Ser,

O relógio não parou desde que partiste. Manteve, impávido, aquele “tic-tac” que soma segundos e engrossa saudades.
Avolumam-se as horas, engrandecem os dias… e cimentam-se oito anos em que a tua ausência tem um peso cada vez maior.
No silêncio da casa, revejo-te no álbum de memórias que construímos em três décadas de amor e, ao pôr-do-sol, ainda te ouço sussurrar o meu nome.
Não esqueço, meu Bem-Ser, que seremos sempre um… mesmo que só um possa dizê-lo.


Esther


Jornal "A Aurora do Lima"
in Secção de Necrologia
18 Agosto 2010

terça-feira, 24 de agosto de 2010

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Eu só quero que pressintas o impacto dos meus ideais
Que não me mintas nem sintas medo dos temporais
Pelas minhas cordas vocais só passa o ar da verdade
Do fruto que tens em mente não esperes ter só metade
Ergue a cabeça e entra no ringue, exercita a tua mente
Vais reparar, sem abrandar, que ela te mantém na frente
Não é falta de humildade nem ambição desmedida
Se não lutas e te conformas então vais pagar com a vida
“Por morrer uma andorinha não acaba a primavera”
Continua a caminhar e verás o que te espera
Não é quimera nem devaneio, escala a montanha sem medo
Desafia a lei do conformismo que só sabe apontar o dedo
O piso só faz cair quem anda a passear distraído
Tantos andam a dormir mais do que um recém-nascido
Entra-lhes a 100 no ouvido o zumbido da sociedade
E o cérebro já comido faz da ilusão, realidade
O cupido da sonolência acerta no alvo em cheio
Falam de combater a demência mas não passa de paleio
O mundo parece um recreio cheio de armadilhas escondidas
E no meio do sorteio crescem ideias aborrecidas
Uns dão corda à mesquinhez e sobem ao palco atordoados
Outros falam mal português e acham-se poetas consagrados
Por isso tens de perceber que é uma batalha constante
Seguir em frente confiante neste ambiente alucinante
Mas num instante vais entender que basta apenas teres presente
Que o sucesso vem do progresso de uma mente diferente.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Parte VII

As lágrimas fizeram a chávena de chá entornar. Porra! Sinto uma nuvem nos olhos que me pesa nas pálpebras. Quero voltar a dormir mas ele limpou as migalhas, e arrependo-me do facto de estar a caminho. Abre a porta e fala, fala, fala. Mas não compreendo nada. Não! Pára! O que fizeste? Porque estás assim vestido? Onde puseste as migalhas? Não percebes que me afectam as mudanças? Não sabes que preciso que as coisas não mudem de lugar e que as sombras nas paredes sejam sempre as mesmas? Não quero que mudes de voz nem que a tua roupa varie muito. Estás a matar-me! Sai.
- Sim, estou mais calma.
- Não, não preciso de nada.
- Vou desligar, tenho outra chamada em linha.

(...)

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Parte VI

Se me amas, estás doente porque não sou nada. Por favor, despe-me e olha para mim. Enternecido. Não passes sem mim para além daquela porta. Olha-me enquanto me aqueces o chá.
- Não vás! Sopra… está quente.
Sopra até eu conseguir beber. Quero que me veja bebê-lo. Não vás. A porta bate.
- Sim, estou bem.
- Não, hoje não chorei.
E desligo com a pressa de que perceba e se sinta culpado. Só queria encostar-me a um canto e chorar tão alto que me ouvisse e viesse ter comigo. Me pegasse ao colo e me beijasse a testa. Só queria agarrar-me às suas pernas e encharcar-lhe as calças. Deixar lá todos os monstros que sou.
Toca de novo o telefone. Atendo e choro fora de tempo. Pede que me acalme e diz que está a caminho. Vem depressa, como se me pudesse amar toda.

(...)

sábado, 7 de agosto de 2010

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Parte V

Procuro as bolachas na cozinha arrumada e arrasto-me até ao quarto. Forço-me a comer e recolho-me nos lençóis. Afinal até gosto deles lavados e agradeço a Deus pelo seu empenho. Ao arrastar o corpo para me aconchegar, sinto as migalhas a arranharem-me a pele. Gosto, fazem-me sentir viva. Quase adormecida, sinto-o a chegar. Semicerro os olhos e vejo-o abrir a porta do quarto tão devagar que o movimento parece causado por uma brisa suave. Fita-me delicadamente. Tenho saudades de o ver sorrir. Aproxima-se e cola um post-it no pacote das bolachas. Fecho os olhos e adormeço. Uma grande festa! A casa era enorme e cheia de gente feliz. Tinha de andar em bico de pés porque não podiam dar pela minha presença. Não sei porquê mas sabia que me expulsariam se me vissem. Estava exausta e ofegante. Nua, desesperava-me para apanhar a roupa que ia crescendo no soalho brilhante. Vestia-me apressadamente mas ela desaparecia no corpo. Esticava os membros exaustos para agarrar uma e outra peça mas, depois de tanto esforço, simplesmente se desfazia e parecia mergulhar pelas frestas da minha pele. E quanto mais isso acontecia, mais eu inchava, e com mais dificuldade me serviam as peças. Mergulhavam todas no meu corpo e senti-me sufocar. Inchei, inchei, inchei, até que. “Voltei! =)”, está escrito no post-it. Claro que voltou. Volta sempre. E volta sempre tão inteiro. Mistura-se em mim sem medo de morrer, de matar, ou de perecermos os dois. Sabem aqueles dias que todos temos, em que nos entregamos a uma árvore, ao céu, ou à formiga que passa? Ele assim se esquecia de tudo à sua volta para somente me absorver.

(...)

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Parte IV

Quando acordei, assaltada por um arrepio frio, reparei na janela aberta e no dia cinzento que se enamorava das frestas da persiana mal corrida. Ele deixou um bilhete na mesa de centro: “Volto amanhã”. Estranhei o gesto pois sabia que voltava sempre. Não o senti partir, e temo que esse “amanhã” seja outro que não hoje, longe demais. Porquê o bilhete? Achar-me-ia demasiado perdida para acreditar que voltaria? Deixar-mo-ia para se obrigar a ver-me, de novo, os olhos lamacentos e as mãos fechadas? Pousei o bilhete lentamente como se tivesse medo de o acordar, e vi o meu reflexo no vidro da mesa: tenho o cabelo despenteado. E acrescentei no bilhete: “Fazes-me falta”. Não estou louca mas sinto-me sê-lo, agora que vejo o chão da casa livre de porcarias e os lençóis do quarto me cheiram a sabão. Antes de partir deve ter apanhado a roupa espalhada e arrependo-me de não ter sido eu a apanhar as cuecas sujas de sangue. Sinto-me mesmo a enlouquecer. Há agora um grande contraste com o estrago dentro de mim. O aspecto limpo e arrumado assombra-me o estado de espírito. Não me sinto encaixar na minha casa e transbordo de transtorno. Ele não devia…

(...)

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Parte III

“Carpe Diem” amargava-me os sentidos. Sempre achara que temos tantos dias que não faz mal escapar-nos um de vez em quando. Farto-me dos seus sermões mas sinto a sua falta quando não está presente para me aquecer o chá. Os olhos abrem-se, o banho corre. Sufoco ao sentir os poros alagados e, numa expressão angustiada, inalo o ar que entra na boca por entre os pingos de água. Ele passa o sabonete pelo avesso das minhas mãos e eu fecho-as, como faço sempre que me sinto envergonhada. Diz-me para parar de enganar a natureza, baptizando-lhe os medos, e sinto os meus olhos a incharem. Larga o sabonete e abraça-me, e eu deleito-me na precisão de, como nas pausas, ele me descobre. Enrola-me numa toalha e pergunta-me pelos pijamas lavados. Ouço os seus passos apressados tropeçarem na imundice que pesa no chão sujo e chega com uma roupa a cheirar a fresco. Encosta a porta e afasta-se. Sabe sempre levar-me ao peito a vontade de respirar sozinha, de olhos abertos, um pouco mais. Embrulhada no sofá, sinto-o a entrar na sala. Traz-me o chá. E penteia-me o cabelo. Acho que o faz porque me acalma, ou por ser o único momento em que me entrego feliz.

(...)

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Parte II

Arrasto as costas pela parede e deixo os joelhos tocarem no queixo, enquanto as mãos devoram os dedos dos pés e o corpo balança. “- O que precisas para seres feliz?” Respondi-lhe com meia hora de soluços. Nunca ninguém se tinha preocupado com isso (nem mesmo eu). Quando acordei, ainda no chão, tinha o seu sorriso meigo junto à minha cara. Ficava tão impressionada com aquela entrega que preferi nem me mexer com medo de a estragar.
Costumava convencer-me a ir correr pelo paredão e, sempre que me via a ficar para trás, esperava, dizendo, por amor, que abrandara por cansaço. E eu fingia acreditar para não intimidar aquela estima. Cansada, bastava deixar cair o corpo no sofá para encontrar o aconchego dos seus braços. Ele ficava, só para me ver dormir. Nunca me achou louca por escrever nos cortinados. Sabia que, nos dias de sol, as paredes se enchiam de palavras gigantes que me faziam sentir bem, por saber que os meus ecos cresciam também noutro lugar. Penteava-me o cabelo e obrigava-me a lavar a cara. Não comentava os pés no tablier e, no sinal vermelho, esticava o braço para a pala de sol do meu lugar e abria o espelho. Lembro-me de me arrastar pelo banco abaixo para não me arrepender de ter dado passos para lá da porta de casa.

(...)

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Parte I

Deixei a terapia por não suportar o tom de voz de “vizinha bem-disposta” da mulher que me invadia a vida. “-Eu estou aqui. – Faz-me sentir ainda mais louca. Como quer que acredite que pensa em mim quando, na realidade, não posso estar consigo quando preciso? Está aqui por dinheiro. Deve ter a sua mansão branca, o cão que a acompanha enquanto faz bolos para a chegada dos filhos, janta sempre à mesma hora e vai ao cinema com o seu marido para arejar, só porque é saudável. A sua vida deve ser tão perfeita que, de vez em quando, até tem os seus problemas. O que faço eu aqui? Nunca caberei na sua vida. Deve estar treinada para se distanciar. Sabe o que tenho feito, sabe? Durmo! Não tomo banho há 3 dias e quando me visitam, lavo-me aos bocados, se tiver forças. O meu pijama tem nódoas dos tempos em que me alimentava e vive colado ao meu corpo pelo suor do vazio. E sabe o que vou fazer a seguir? Vou bater com a porta que abafa este consultório infernal, entrar no carro e só parar na porta do prédio. Subirei pelas escadas porque a merda do elevador está avariado e, cheia de pena de mim, abrirei a porta aos vómitos e correrei para a retrete. Com ainda mais pena, desmaiarei o corpo sob o chão gelado e adormecerei imunda.”

(...)

domingo, 1 de agosto de 2010

sábado, 31 de julho de 2010

quinta-feira, 29 de julho de 2010


“Ainda que te possa parecer estranha a comparação, os gestos, para mim, são mais do que gestos, são como desenhos feitos pelo corpo de um no corpo de outro."

terça-feira, 27 de julho de 2010

Juro que não vou esquecer...

Nunca vou esquecer o olhar da rapariga que espera o tratamento de radioterapia. Sentada numa das cadeiras de plástico, o homem que a acompanha (o pai?) coloca-lhe uma almofada na nuca para ela encostar a cabeça à parede e assim fica, magra, imóvel, calada, com os olhos a gritarem o que ninguém ouve. O homem tira o lenço do bolso, passa-lho devagarinho na cara e os seus olhos gritam também: na sala onde tanta gente aguarda lá fora, algumas vindas de longe, de terras do Alentejo quase na fronteira, desembarcam pessoas de maca, um senhor idoso de fato completo, botão do colarinho abotoado, sem gravata, a mesma nódoa sempre na manga (a nódoa grita) caminhando devagarinho para o balcão numa dignidade de príncipe. É pobre, vê-se que é pobre, não existe um único osso que não lhe fure a pele, entende-se o sofrimento nos traços impassíveis e não grita com os olhos porque não tem olhos já, tem no lugar deles a mesma pele esverdeada que os ossos furam, a mão esquelética consegue puxar da algibeira o cartãozinho onde lhe marcam as sessões. Mulheres com lenços a cobrirem a ausência de cabelo, outras de perucas patéticas que não ligam com as feições nem aderem ao crânio, lhes flutuam em torno. E a imensa solidão de todos eles. À entrada do corredor, no espaço entre duas portas, uma africana de óculos chora sem ruído, metendo os polegares por baixo das lentes a secar as pálpebras. Chora sem ruído e sem um músculo que estremeça sequer, apagando-se a si mesma com o verniz estalado das unhas. Um sujeito de pé com um saco de plástico. Um outro a arrastar uma das pernas. A chuva incessante contra as janelas enormes. Plantas em vasos. Revistas que as pessoas não lêem. E eu, cheio de vergonha de ser eu, a pensar faltam-me duas sessões, eles morrem e eu fico vivo, graças a Deus sofri de uma coisa sem importância, estou aqui para um tratamento preventivo, dizem-me que me curei, fico vivo, daqui a pouco tudo isto não passou de um pesadelo, uma irrealidade, fico vivo, dentro de mim estas pessoas a doerem-me tanto, fico vivo como, a rapariga de cabeça encostada à parede não vê ninguém, os outros (nós) somos transparentes para ela, toda no interior do seu tormento, o homem poisa-lhe os dedos e ela não sente os dedos, fico vivo de que maneira, como, mudei tanto nestes últimos meses, os meus companheiros dão-me vontade de ajoelhar, não os mereço da mesma forma que eles não merecem isto, que estúpido perguntar
- Porquê ?
que estúpido indignar-me, zango-me com Deus, comigo, com a vida que tive, como pude ser tão desatento, tão arrogante, tão parvo, como pude queixar-me, gostava de ter os joelhos enormes de modo que coubessem no meu colo em vez das cadeiras de plástico
(não são de plástico, outra coisa qualquer, mais confortável, que não tenho tempo agora de pensar no que é)
isto que escrevo sai de mim como um vómito, tão depressa que a esferográfica não acompanha, perco imensas palavras, frases inteiras, emoções que me fogem, isto que escrevo não chega aos calcanhares do senhor idoso de fato completo
(aos quadradinhos, já gasto, já bom para deitar fora)
botão de colarinho abotoado, sem gravata e no entanto a gravata está lá, a gravata está lá, o que interessa a nódoa da manga
(a nódoa grita)
o que interessa que caminhe devagar para o balcão mal podendo consigo, doem-me os dedos da força que faço para escrever, não existe um único osso que não lhe fure a pele, entende-se o sofrimento nos traços impassíveis e não grita com os olhos porque não tem olhos já, tem no lugar deles a mesma pele esverdeada que os ossos furam e me observa por instantes, diga
- António
senhor, por favor diga
- António
chamo-me António, não tem importância nenhuma mas chamo-me António e não posso fazer nada por si, não posso fazer nada por ninguém, chamo-me António e não lhe chego aos calcanhares, sou mais pobre que você, falta-me a sua força e coragem, pegue-me antes você ao colo e garanta-me que não morre, não pode morrer, no caso de você morrer eu
No caso de você e da rapariga da almofada morrerem vou ter vergonha de estar vivo.

António Lobo Antunes, Visão

domingo, 25 de julho de 2010


Vive atenta aos pormenores. Não bebe álcool e adora arroz doce. Impaciente. Gosta de dar conselhos, mas odeia receber. Só adormece com a televisão ligada, e só dorme virada para o lado direito. Chora quando tem vontade mas nem sempre tem motivo. Preocupa-se em excesso. Adora as manhãs. Magoa-se com facilidade. Dificilmente se irrita. Herdou, do pai, a teimosia. Da mãe, o perfeccionismo e o tom alto de voz. Passa a vida a cozinhar e tem a mania das limpezas. Valoriza a simplicidade nas pessoas e precisa que lhe dêem atenção. “Amor e uma cabana” fazem-na sorrir. Acredita no amor à primeira vista. Não gosta quando não se esforçam e afasta-se se não se sente valorizada. Teimosa e persistente, odeia quando a contrariam. Nunca se dá, totalmente, a conhecer. Odeia a cobardia e a falta de sinceridade. Ama crianças e sente o mundo como uma bola pequenina, no meio delas. É alegre, vivaz, e guarda sonhos com os quais ninguém a identificaria. Não se afeiçoa a objectos mas tem um especial. Deixa sempre algo por dizer. Nada materialista, aprecia a natureza e as coisas mais simples da vida. Facilmente conhece as pessoas apenas as observando. Percebe quando lhe mentem mas raramente o demonstra. Ouve as palavras mas espera pelos gestos. Precisa, muitas vezes, que lhe percebam os silêncios. Encerra em si a complexidade de um ser maior do que ela. E, acima de tudo, ama de verdade aqueles a quem diz isso.

sábado, 24 de julho de 2010

quarta-feira, 21 de julho de 2010


Só quando estou na desgraça percebo quem tem valor
Vejo quem chega a correr para fazer o seu melhor
Quem me puxa o cobertor quando o mundo me traz frio
Quem carrega o sol e a alma para o meu lado sombrio
E o meu sorriso vadio espreita o amor que se agiganta
Por aqueles que vêm tirar-me a corda da garganta
O que mais neles me encanta é darem-se por completo
Se perco o rumo da viagem eles são o meu trajecto
Não há soneto nem prosa solta que me faça acreditar
Que sem eles meu coração seria bom para morar
Sempre que os vejo chegar, o céu sorri de vaidade
E num segundo o meu olhar salta para fora da grade
A ansiedade vai embora e a poesia estreita-me os laços
O corpo sente o afecto a preencher-me os espaços
E dou passos para a vitória, sinto-me a pisar o risco
Sem medo de mudar a história, dão-me a mão e eu persisto
Insisto na caminhada, vou vencer esta batalha
Com vocês na mesma estrada a minha força não falha
Sempre por perto, de braços estendidos, o vosso amor faz-me voar
Viajo pelos lugares escondidos que encontro no vosso olhar
E sou feliz no vosso colo, pertenço às vossas mãos abertas
Nas palavras de consolo encontro as opções correctas
E de todos os abrigos que o corpo me possa dar
É só nos vossos sentidos que eu encontro o meu lugar.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

sexta-feira, 9 de julho de 2010

terça-feira, 6 de julho de 2010

Mãe (A Mulher que Eu Amo)

A mulher que eu amo
É um abraço sem fim
E quando ri para mim
Afasta-me do cansaço
A mulher que eu amo
É tão doce e tão pura
Que no seu olhar, a ternura
Me beija num forte abraço
A mulher que eu amo
Tem a beleza infinita
Que não pode ser descrita
Pela palavra mais bela
A mulher que eu amo
Vive em chama na minha vida
E nunca será esquecida
Porque a minh`alma é dela
A mulher que eu amo
Tem estrelas no sorriso
E devolve-me o paraíso
Sempre que chego ao fundo
A mulher que eu amo
Tem a alegria à janela
E eu amo tanto ela
que se for preciso, por ela
Eu vou ao fim do mundo!

Sempre permaneci nas pessoas pelo quanto me sinto ser na vida delas. E sou tantas vezes rainha que me apetece abrir, de vez, a tua porta.

sábado, 3 de julho de 2010


Só depois do amor
O olhar se afasta
Perdes o vigor
Ao sentir que a dor
Pelo corpo alastra
Essa voz no cais
De corpo ancorado
Quer saber se vais
Dar-me um dos finais
De sonho encantado
E adormecido
Sob o mar errante
Vem o sonho altivo
Que de tão perdido
Faz-te ser distante
Um dia, quem sabe
No horizonte em flor
Pousarei de leve
A vida que é breve…
Só depois do amor.

segunda-feira, 28 de junho de 2010



O que seria dos lugares mais belos sem a presença de respirações cruzadas?
O que seria do pôr-do-sol sem a lembrança do abraço eterno que nos aconchega o corpo?
O que seria daquele objecto se nunca tivesse suspirado no peito dela?
O que seria da vida sem aqueles que mais amamos?

A vida morre-me na ausência do vosso abraço apertado...

quinta-feira, 24 de junho de 2010

terça-feira, 22 de junho de 2010

domingo, 20 de junho de 2010

E tudo a palavra levou...


A vida sempre me disse que as palavras não valem nada. E as pessoas ensinaram-me que não há nada nas palavras.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Eles caem que nem patinhos no decote acentuado
Vêm com ar de meninos a pedir um rebuçado
Andam pelas noites à caça da sua Bela Adormecida
E ela dá-se por rendida em troca de boa vida
“- Só quero ver a saída desse vestido apertado”
O corpo faz do intelecto um lugar censurado
Basta um olhar, um sorriso, e eles dão-te o que quiseres
Vejo-os a subir de piso com a palavra “mulheres”
Elas preferem vender-se do que terem dignidade
Não querem comprometer-se com um amor de verdade
O bolso cheio as persuade a dar-se a qualquer idiota
E pela magia do baton quantos caem na bancarrota
É uma anedota que não faz rir, antes prefiro chorar
Ver a moral a cair sem que a possa segurar
Não me confundas, sou mulher mas não me vendo por nada
Posso estar no meio delas mas tenho a testa marcada
Melhor do que o meu decote é o pacote interior
O pensamento é o meu forte, o delas cria bolor
Recomendo-te que ouças o que tenho para dizer
Quanto mais fechares os olhos melhor me consegues ver
Mas se as preferes, põe-te a mexer, não me faças perder tempo
E aproveita o momento desse encontro-passatempo
Porque quando a Bela acordar e não couber mais no vestido
Vou-me rir e tu vais chorar como um menino perdido.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Há lado aí?



Hoje lembrámos os momentos que contigo passámos
Sentados no café falámos do que vivemos há anos
Tinhas o dom de iluminar qualquer chão que pisasses
Porque foste assim partir? Queríamos tanto que ficasses
Que não deixasses à deriva esta saudade traiçoeira
Nunca pensamos ter de lembrar-te desta maneira
O que é feito de ti? És uma estrela do céu?
-“Lamento muito mas tens de perceber que ele morreu”
Vem buscar o que é teu, respira para nós de novo
Traz a paz e a alegria que transmitias a este teu povo
Sai desse lado. Há lado aí?
Tira o bilhete e vem tirar-me o tempo que sem ti vivi
Ainda me lembro dos recados em guardanapos rasgados
Que oferecias às meninas dos lábios rosa-encarnados
Quando te rias da falta de jeito das minhas gargalhadas
E das nossas discussões pelas palavras cruzadas
Mal eu sabia que o teu bem-estar era só fachada
Sozinho de porta trancada mantinhas a alma algemada
Perdoa-me não ter reparado naquele teu olhar fechado
Por não ter sequer notado que entravas no lado errado
Aqui sentada, escrevo e imagino o teu desespero
De quem um dia viu a vida a entrar num buraco negro
Se voltar a encontrar-te dá-me um abraço apertado
E promete-me que não voltas a partir para outro lado.

domingo, 6 de junho de 2010


Andam com o olhar desperto
Pelo seu deserto
A chamar por mim
Vêm de mão dada à vida
Que de tão sentida
Faz-me ser assim
Alegre de um olhar seguro
De um coração puro
De um viver maior
A rir como uma criança
Que balança e dança
Com um mundo melhor.

quarta-feira, 26 de maio de 2010


Seria uma longa caminhada pelo deserto da vida...

... e ele prometeu-lhe que nos momentos mais difíceis a protegeria e estaria sempre do seu lado.
Muito tempo se passou e ela decide olhar para trás. Depois, furiosa, disse-lhe:
- Ouve lá, prometeste que estarias sempre do meu lado e me protegerias, mas em todos os maus momentos só vejo duas pegadas. Não há sinais da tua presença ao meu lado.

Ele deixou cair os braços, virou costas e partiu sem dizer uma palavra. E ela ficou sem perceber que em todos os maus momentos ele a carregou nos seus braços.

Preciso tanto...

... que inclines para trás a cabeça e que deixes que a água da chuva te lave a cara e a vida.
... que te descalces sob uma poça de lama e que sintas na pele a maciez do toque da natureza.
... que passeies as mãos pelas feições do rosto e que sintas na boca a felicidade de um sorriso inteiro.
... que relaxes na sombra de uma árvore e que, de olhos fechados, te entregues ao prazer de uma paz perfeita.
... que te ames. Que te vejas e te sorrias. Que te cuides e te mimes. Que te enalteças.

Preciso tanto que existas...que existas muito.

terça-feira, 18 de maio de 2010

“Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre o que é viver melhor
Naquela mesa ele contava estórias
E hoje na memória eu guardo e sei de cor
Naquela mesa ele juntava a gente
E contava contente o que fez de manhã
E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho, eu fiquei seu fã
Eu não sabia que doia tanto
Uma mesa no canto, uma casa e um jardim
Se eu soubesse quanto dói a vida
Essa dor tão doída não doía assim
Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala no seu bandolim
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim...”

segunda-feira, 17 de maio de 2010

sábado, 8 de maio de 2010

Uma palavra. Disse-a. Amo-te - uma palavra breve. Quantos milhões de palavras eu disse durante a vida. E ouvi. E pensei. Tudo se desfez. Palavras sem inteira significação em si, o professor devia ter razão. Palavras que remetiam umas para as outras e se encostavam umas às outras para se aguentarem na sua rede aérea de sons. Mas houve uma palavra - meu Deus. Uma palavra que eu disse e repercutiu em ti, palavra cheia, quente de sangue, palavra vinda das vísceras, da minha vida inteira, do universo que nela se conglomerava, palavra total. Todas as outras palavras estavam a mais e dispensavam-se e eram uma articulação ridícula de sons e mobilizavam apenas a parte mecânica de mim, a parte frágil e vã. Palavra absoluta no entendimento profundo do meu olhar no teu, palavra infinita como o verbo divino. Recordo-a agora - onde está? Como se desfez? Ou não desfez mas se alterou e resfriou e absorveu apenas a fracção de mim onde estava a ternura triste, o conforto humilde, a compaixão. Não haverá então uma palavra que perdure e me exprima todo para a vida inteira? E não deixe de mim um recanto oculto que não venha à sua chamada e vibre nela desde os mais finos filamentos de si? Uma palavra. Recupero-a agora na minha imaginação doente. Amo-te. Na intimidade exclusiva e ciumenta do nosso olhar mútuo e encantado. Fecha-nos o lençol na claridade difusa do amanhecer, estás perto de mim no intocável da tua doçura. Frágil de névoa. Fímbria de sorriso e de receio, de pavor, no meu olhar embevecido. Uma palavra. A primeira que em toda a minha vida me esgotou o ser. A que foi tão completa e absorvente, que tudo o mais foi um excesso na criação. Deus esgotou em mim, na minha boca, todo o prodígio do seu poder. Ao princípio era a palavra. Eu a soube. E nada mais houve depois dela.

Vergílio Ferreira - "Para Sempre"

sexta-feira, 7 de maio de 2010


“É preciso ter asas quando se ama o abismo.”

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Culto

Grito (8)

Mais uma morte. Mais uma vida que se desfez em segundos. Mais um corpo que entregou à terra tantas histórias.
Aqui, intacta e por vezes interrompida pela falta de ar, reflito um pouco mais. Como somos nada... como somos leves... como somos vencidos pela tortura do inevitável. Como somos estúpidos ao ponto de esperarmos pelo amanhã para tudo, e entregarmos ao impossível os desejos mais ousados.
Ela deixou tantos planos por cumprir. Deixou os ponteiros do relógio a rirem-se da agenda incompleta que ficou na gaveta bolorenta. Ela... (falta de ar) ela fez-me deitar o corpo sob a cama irrequieta e fechar os olhos na imensidão de tudo aquilo que me preenche. Estou vazia. Quase nada em mim, afinal, tem morada certa. Os sonhos estão parados, os desejos desfalecem nas expectativas, as pernas tremem pela falta de direcção, e o coração dói com a ausência incompreendida de uma alma desejada. Destruo tudo. Salto por cima do que não presta, do que não faz falta, do que devia ser mas não é. Conheço a solidão ao pormenor para lhe encontrar as fraquezas. Dou-lhe a guerra e venço. Embalo os sonhos inconformados e ponho-os na terra à qual pertenço. Convenço-me daquilo que sou capaz e, de repente, algo novo está à minha frente. Olá vida, prazer em conhecer-te. Sabes que levei algum tempo a compreender-te. Venho habitar por inteiro na tua casa, beber-te das mãos o que cura a minha asa. Há tanta gente aqui, sorrisos sinceros que me amam, e de repente dei por ti enquanto outras vozes me chamam. Diz-me quem és, dá-me um abraço forte, desfaço os pontos cardeais, faço de ti o meu norte. Não é sorte nem passaporte, é a força de vencer. É querer-te longe da morte, da vontade de morrer. És o amor, a felicidade, o pôr do sol no deserto. Sou a distância que percorres para me dizeres que está certo, que estou perto da próxima paragem, e a viagem vai prosseguir num rumo aberto, sem céu encoberto que me limite a passagem. Miragem ou não, és quem me leva em frente, quem me aperta a mão, quem me abriga a mente, quem me dá, por inteiro, o coração.

segunda-feira, 3 de maio de 2010



A ausência da tua voz obriga-me a pele a roçar no desassossego de um lugar estranho. Queria ler-te nos olhos a certeza dos dias. Flutuarmos na precisão de um abraço arrepiado e deixar-me levar pela força que me prende ao teu viver.
Se há coisa que me perturba na vida é o facto de as opções que não tomamos ser uma opção. Nunca conseguimos afastarmo-nos do ciclo de vivências e parar por instantes a existência das coisas. Deixa-me tão exausta a presença de vida nas acções desmaiadas…

domingo, 2 de maio de 2010

O amor são gestos que engulo à força e que me devoram as margens do coração aflito. As palavras que abafo e que ficam contidas no olhar desviado. Os momentos que escondo em sonhos guardados no balanço do tempo. Sou eu quebrada, inclinada sob o desejo de subir às nuvens num balão incontrolável.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

domingo, 18 de abril de 2010

Não me desfaço em continências, fico com o melhor pedaço
Nem vivo só de aparências, cada linha pode ser traço
Num abraço sou ferro e aço, tenho até olhos nas costas
E quando me vens com propostas eu parto para as apostas
Possuis as raízes expostas, não gostas quando te atiro à cara
Que tens o ego enaltecido por uma doença rara
Que não sara, não vai embora, faz de ti mais do que escravo
Subjugado ao seu poder, domado pela sua lei infinita
De erros crassos e fracassos de uma vivência restrita
Que imita o caos, faz-te falhar em cada atitude fria
Mostras nos passos a imperfeição dessa alma vazia
Que vida é essa, que respiras em pó branco, disfarçada
Que vendes em doses às vidas que caem nessa jogada
Cresces e apareces nos bairros desnorteados
Fazes cair no buraco até os mais preparados
Enches os bolsos com a miséria dos viciados na rotina
E as crianças saem da escola para aprender esta doutrina
São os meninos dos recados, do paraíso alucinado
Compram como quem vai ao pão a um qualquer supermercado
E há os dias de promoção em que fazem o sacrifício
Dão-te a inocência em troca de dez gramas de vício
Em casa não há pão na mesa, comem no lixo da rua
Não há quem se chegue à frente, a polícia não actua
E a desgraça continua, a calamidade aumenta
Já ouço chegar a guerra que, se não entra, rebenta!

sábado, 17 de abril de 2010

Muita gente gostava de me ver cair
De me impedir de avançar neste caminho estreito
Tantos são os que rezam para não me ver sorrir
E que em queda desejam que fracture o pé direito
Rodeiam-me de futilidades, superficialidades ilusórias
Não insiram a minha vida em nenhuma das vossas histórias
Eu quero viver em paz, respirar fundo e chegar alto
Ver-vos assistir ao meu sucesso de cara para o asfalto
Há sempre quem nos prefere ver a pedir do que a subir
Se pudessem até o céu iriam sob nós demolir
Fazer ruir o chão que pisamos, esmagar-nos a consciência
Arrasar todo o bem-estar, desfigurar a nossa essência
Farto-me desta batalha, dão-te a mão, tiram-te o braço
Fazem tudo para te ver fazer figura de palhaço
Trazem o sorriso embrulhado em votos de mau-olhado
Fazem de ti um santuário de pacto do mal sagrado
Por outro lado, há quem nos ame, nos encoraje a sonhar
Quem nos faz adormecer num outro melhor lugar
São estes que me fazem desejar momentos sem fim
Que me obrigam a abrandar e que sempre esperam por mim
Obrigada por enaltecerem o meu quotidiano
E por me darem a conhecer o melhor do ser humano.

quarta-feira, 7 de abril de 2010



Peter Sloterdijk não podia estar mais certo...
O ser humano é aquele tipo de animal que falhou em manter-se como animal. Um erro qualquer deu origem à consciência.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Ele fala dela como quem conta o dia mais feliz da sua vida.
Teresa morreu-lhe nos braços depois de uma luta incansável contra um cancro de mama que se alastrou a outros órgãos do organismo. Era alegre, vivaz, apaixonada pela vida. Tinha em si a beleza triunfante de um coração enorme. Doce, generosa, lutadora. Não a cheguei a conhecer pessoalmente, mas ele carrega-a intacta no sentimento, na memória e no anel que mexe e remexe enquanto a descreve carinhosamente.
Gosto de o ouvir. Sento-me de frente para ele e acompanho, deliciada, cada postura a que as recordações o obrigam.
Hoje vim visitá-lo. É incrível como Teresa vive em cada canto da casa… está tudo intacto. A decoração, os cheiros, os perfumes e os colares na cómoda do quarto. Ao sábado, ele colhe sete margaridas brancas que põe, cuidadosamente, no jarro da mesa de centro da sala de estar, tal como Teresa fazia.
Agora, de pé, encostado à ombreira da porta da cozinha que dá para o exterior, observa vagarosamente o “jardim da Teresa”. Desvia o olhar para a fotografia que segura, como quem a devora. Exerce tanta força nela que parece ter medo que se desfaça por entre os dedos. Respira fundo de olhos bem cerrados e deixa cair uma lágrima que inunda a face de Teresa na fotografia. E num tom de voz absurdamente sossegado, volta-se e diz-me:

“Sabes, às vezes é quando as pessoas morrem que nunca mais deixam de existir.”

Que lindo! *.*

"A minha deusa é alta, esguia e infinita. Tudo nela é grande e ao mesmo tempo perfeito, do tamanho dos olhos ao do coração. Possui uma cintura de vespa e um cabelo farto e despenteado, como tão bem lhe compete e melhor lhe assenta. Como todas as deusas, parece eternamente jovem e reina sobre tudo o que a rodeia sem sequer dar por isso. A minha casa e os nossos filhos respiram o oxigénio dela, um ar puro e adocicado como se dos belos dentes brancos se libertasse um hálito divino e dos olhos imensos caíssem fios de mel que suavizam todos os gestos. A voz é grave, serena e quente, própria dos seres que não são bem deste mundo. Nos dedos imensos e nas mãos grandes adormecem os filhos e o meu coração acalma-se, as cores descansam e às vezes a terra suspende a rotação.
A minha deusa é ainda mais bela por não saber que é uma deusa. Não sabe que todos os dias faz milagres na sua máquina de cozinha, não sabe o jeito que tem para ser mãe, não mede a generosidade com que trata os amigos e os filhos dos outros, não sonha o quanto as pessoas que gostam e precisam dela. Mas há deusas assim, que passam pela vida sem adivinhar o que são, como se fossem iguais às outras mulheres e que encolhem os ombros perante os seus defeitos, numa discrição congénita, quase tímida, quase infantil, desconhecendo o imenso poder que emanam.
A minha deusa é minha e leva dentro dela metade de mim. Quando o nosso filho nascer vou ver-me nele e agradecer-lhe para sempre. Será sempre bela na forma pura como se comove com a tristeza dos outros. Tem pena de ter só dois braços porque sabe que neles não cabe o mundo. Mas caibo lá eu, os meus e os nossos filhos, os pais e irmãos dela e as amigas, uma que ajudou a salvar e a outra que a faz rir e lhe escreve páginas de jornal. Sem saber o que a faz levitar, circula pela casa como uma pássaro e o seu sangue corre nas minhas artérias. Não preciso de rezas nem de altar para a minha deusa, porque se senta todos os dias comigo à mesa e dormimos na mesma cama.
Quero tê-la ao meu lado para sempre, porque sei que nunca vai envelhecer, nunca me vai trair, nunca se vai esquecer de quem gosta dela e nunca vai deixar de ser a melhor cozinheira e a melhor mãe do mundo. E quando os nossos filhos crescerem, quero viajar com ela pelo mundo inteiro e casar muito depressa, num ilha escondida onde só os nossos melhores amigos se vão juntar para a grande festa.
Os homens são como os deuses, nascem e morrem nos braços de uma mulher e eu quero ficar com ela e ver o mundo mudar à volta dela enquanto o tempo passa sem lhe tocar, porque os deuses são eternos e mesmo que um dia tudo acabe, sei que tive a maior sorte do mundo, porque vivi na terra com uma deusa e poucos mortais têm tão rara e melhor sorte."

domingo, 4 de abril de 2010


Apetece-me ir a Paris saltar nas poças de água como se ninguém estivesse lá para ver. Apetece-me deitar-me ao sol de olhos fechados a ouvir o mar. Apetece-me vestir uma roupa leve e fresca, correr descalça e ser feliz num campo cheiro de girassóis e tulipas. Apetece-me levantar as persianas e abrir as janelas, deixar entrar a Primavera ao som de uma música feliz. Apetece-me sentar-me num banco de jardim e dar de comer aos pássaros enquanto aprecio o sorriso da criança que acompanha o movimento das migalhas a caírem no chão. Apetece-me pousar os braços no parapeito e descansar o olhar no infinito das vidas que respiram lá ao fundo, na cidade. Apetece-me tomar um banho de aromas, vestir o pijama e sentar-me no degrau que dá para o quintal a ler um livro, enquanto o ar quente da noite me aconchega. Apetece-me enrolar-me nos lençóis e adormecer abraçada às cores que dás à minha vida. Apetece-me arregaçar as calças e ir para o meio das rochas apanhar lapas, escorregar e rir-me por ser tão trapalhona. Apetece-me sentar-me na areia, mesmo perto do mar, e sentir a água que vem e vai arrastada pela força das ondas incansáveis. Apetece-me deixar-me flutuar numa piscina e respirar fundo toda a calma que me faz leve. Apetece-me regar o jardim e aproveitar a primeira enxurrada de água quentinha que sai da mangueira para molhar os pés e as pernas. Depois andar com os chinelos a escorregarem-me dos pés e ter pretexto para sentir o cimento do passeio aquecido pelo sol teimoso. Apetece-me passear de carro, abrir o vidro e concentrar-me na brisa que me embriaga os cabelos, enquanto a música que passa na rádio me faz sonhar com os mundos e fundos da paisagem que me cerca e que se perde a cada suspiro. Apetece-me acampar. Passar dois dias ao ar livre e ver a noite cair em mim como se não houvesse mais lugar no mundo onde isso acontecesse a alguém. Encostar-me a uma árvore centenária, ouvir o som do riacho que passa ali ao lado, olhar para a lua e sonhar alto, muito para além dela e das estrelas. Apetece-me ser criança, ser ave, ser barco de papel. Coração. Gargalhada. Flor. Sol. Música. Pele. Aroma. Jardim. Paisagem. Apetece-me a vida. Feliz. Apetece-me ser feliz. Apetece-me abraçar-te, sentir-me em paz e entrelaçar a tua vida na nossa eternidade.

sábado, 3 de abril de 2010




Se podia viver sem vocês?
Poder podia, mas não era a mesma coisa!

quinta-feira, 1 de abril de 2010



De que nos valem as palavras e os poemas bem produzidos
Se há mágoa nos nossos actos, em todos os nossos sentidos
Eu sei que erro e sofro muito, não me sei dar a ninguém
Por que raio te amo tanto? ...faço-te sofrer também
Quero o teu bem, e desfaleço, não suporto mais estas horas
De ausência incompreendida nos dias em que demoras
E me devoras o mundo que gira em torno do teu amor
Não parece mas é só esse que me leva toda esta dor.

quarta-feira, 31 de março de 2010

I look to you...



As I lay me down
Heaven hear me now
I'm lost without a cause
After giving it my all

Winter storms have come
And darkened my sun
After all that I've been through
Who on earth can I turn to?

(Chorus)
I look to you
I look to you
After all my strength is gone
In you I can be strong

I look to you
I look to you
And when melodies are gone
In you I hear a song I look to you

(Verse 2)
After I lose my breath
There's no more fighting left
Thinking to rise no more
Searching for that open door

And every road that I've taken
Led to my regret
And I don't know if I'm gonna make it
Nothing to do but lift my head

(Chorus)
I look to you
I look to you
After all my strength is gone
In you I can be strong

I look to you
I look to you
And when melodies are gone
In you I hear a song
I look to you

(Bridge)
My love is all broken (oh Lord)
My walls have come (coming down on me)
tumbling down on me (All the rain is falling)

The rain is falling
Defeat is calling (set me free)
I need you to set me free
Take me far away from the battle
I need you to shine on me

(Chorus)
I look to you
I look to you
After all my strength is gone
In you I can be strong

I look to you
I look to you
And when melodies are gone
In you I hear a song
I look to you

I look to you
I look to you...

domingo, 28 de março de 2010


Sei que te amo, sempre o soube. Desde o momento em que nasceste, no primeiro fôlego da manhã, fiquei preso a ti como uma raiz adormecida no jardim da cidade. Sempre te amei, distraído ou apressado, sem nunca vacilar. A vontade de te ter por perto, a ânsia de te ver chegar com o melhor de mim no teu sorriso. Como eu gostava de saber de ti, de te ler os olhos por entre palavras inacabadas. Desmontar o mundo num abraço interminável.
A falta que me fazes… Tinhas em ti todo o sentido da minha vida. Como era bom nos pensar. Fazer planos e ver-te rir dos meus sonhos aluados. Tantas vezes tive medo de te perder. Passar por ti na rua e ser outro a provocar o teu sorriso. Eras tão minha. Tão perfeita. São teus os lugares por onde passavas, ficaste neles como as pedras da calçada. Guardaram a tua magia para me afagarem nestes dias tão ausentes de ti.
Trabalho o dobro, penso metade. Entro em casa cabisbaixo, exausto de tanta saudade. Sento-me no sofá e fecho os olhos só para te ver melhor.
A janela da cozinha dá para o largo onde te conheci. Faço um chá de mão tremida e sento-me dolorosamente no lugar que era só teu. O largo está tão vazio de nós. Vejo o meu reflexo no vidro da janela. Levaste tudo de mim. Essa porta que fechaste sugou-me a vida inteira.

sexta-feira, 19 de março de 2010

quinta-feira, 18 de março de 2010

Tenho dito

segunda-feira, 1 de Março de 2010

"Afinal não é assim tão fácil segurar os sonhos realizados."

Eu sei lá...

segunda-feira, 15 de março de 2010

Não sei se quero ficar, não sei onde isto vai dar
Tanto mais me preocupa do que a guerra núclear
Estás a pensar no mesmo que eu se vives atento aos pormenores
Nunca foi um conto de fadas mas agora é conto de horrores
A televisão formata as mentes pra consumirem até à exaustão
Todos vêem programas mesquinhos, todos seguem o mesmo padrão
Que função têm os jornais senão deixar-nos distraídos
Só os assuntos mais banais chegam aos nossos ouvidos
Há ainda tanto para ouvir, tanto que nunca mais saberemos
Pestes e curas bem guardadas nos cofres gordos dos governos
Andamos todos a brincar, deixar andar não é solução
Os pobres e os esfomeados já não são grupo mas multidão
Estou farta de ver tristeza espalhada em cada guerra
Entou farta do som da pá que cobre o caixão que se enterra
Partem uns atrás dos outros, o buraco é cada vez mais fundo
Estamos a saturar a terra com a podridão do mundo
Enquanto escrevo este texto quantos não morrem de fome
Quantas não fazem o teste para dar ao filho um nome
Acabaram-se os valores, está tudo à mão de semear
Elas oferecem-te o produto nem tens de solicitar
Põe-te a andar que eu devo estar apenas no lugar errado
Vim parar a um sítio destes mas devo ter lugar marcado...
noutro lado.

domingo, 14 de março de 2010

Tornei-me uma figura de livro, uma vida lida. O que sinto é (sem que eu queira) sentido para se escrever que se sentiu. O que penso está logo em palavras, misturado com imagens que o desfazem, aberto em ritmos que são outra coisa qualquer. De tanto recompor-me destruí-me. De tanto pensar-me, sou já meus pensamentos mas não eu. Sondei-me e deixei cair a sonda; vivo a pensar se sou fundo ou não, sem outra sonda agora senão o olhar que me mostra, claro a negro no espelho do poço alto, meu próprio rosto que me contempla contemplá-lo.


Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"

quinta-feira, 11 de março de 2010


Compreender a pessoa na sua existência sem a reduzir aos meus princípios.

quarta-feira, 3 de março de 2010

xD tamos sempre a aprender

"
1. A vida não é fácil, acostume-se com isso.
2. O mundo não está preocupado com a sua autoestima. O mundo espera que você faça alguma coisa útil por ele ANTES de sentir-se bem com você mesmo.
3. Você não ganhará R$ 20 mil por mês assim que sair da escola. Você não será vice-presidente de uma empresa com carro e telefone à disposição antes que você tenha conseguido comprar seu próprio carro e telefone.
4. Se você acha seu professor rude, espere até ter um chefe. Ele não terá pena de você.
5. Vender jornal velho ou trabalhar durante as férias não está abaixo da sua posição social. Seus avós têm uma palavra diferente para isso: eles chamam de oportunidade.
6. Se você fracassar, não é culpa de seus pais. Então, não lamente seus erros, aprenda com eles.
7. Antes de você nascer, seus pais não eram tão críticos como agora. Eles só ficaram assim por pagar as suas contas, lavar suas roupas e ouvir você dizer que eles são “ridículos”. Então antes de salvar o planeta para a próxima geração, querendo consertar os erros da geração dos seus pais, tente limpar seu próprio quarto.
8. Sua escola pode ter eliminado a distinção entre vencedores e perdedores, mas a vida não é assim. Em algumas escolas você não repete mais de um ano e tem quantas chances precisar até acertar. Isso não se parece com absolutamente NADA na vida real. Se pisar na bola, está despedido. Faça certo da primeira vez.
9. A vida não é dividida em semestres. Você não terá sempre os verões livres e é pouco provável que outros empregados o ajudem a cumprir suas tarefas no fim de cada período.
10. Televisão NÃO é vida real. Na vida real, as pessoas têm que deixar o barzinho ou a boate e ir trabalhar.
11. Seja legal com os CDFs (aqueles estudantes que os demais julgam que são uns babacas). Existe uma grande probabilidade de você vir a trabalhar PARA um deles."

terça-feira, 2 de março de 2010


Foi um amor perfeito. 40 anos de cumplicidade e companhia. Uma vida cheia de aventuras e conquistas. Hoje ela é doente de Alzheimer. Tem 23 sobrinhos e desde que adoeceu nem um telefonema recebeu. Só o tem a ele. Ele não a quer em instituições porque diz que ninguém lhe daria tanto amor quanto ele. Ele abdicou de tudo. Trata dela. Da casa. Da roupa. Da comida. Teve mulher-a-dias mas o dinheiro não chegava. Sai uma vez por dia. 15 minutos. Desce as escadas com o coração apertado e vai ao café da rua. Volta com o peso de ter saído e a primeira coisa que faz é ver se ela está viva. Hoje demorou mais. A companhia da jornalista fê-lo demorar e faz questão de acelerar o passo no regresso, com lágrimas nos olhos. Contou, enquanto bebida o café de mão tremida, que todos os dias olha para as fotografias. “- Que saudades! É como a canção “Oh tempo volta para trás”. Encolhe os ombros. “Não volta.”
Sala de aula quase vazia. O reflexo do sol a subir aos poucos pela parede. Amanhecer. O ambiente abafado e o barulho de bocejos aleatórios. Sono. Um discurso brilhante. Um génio do coração. Um sorriso incapaz de deixar indiferente uma qualquer alma atenta. Eu. Sarrabiscos nas folhas dos cadernos. Alheamento. Olhos cansados, pousados nas folhas. Eles. Pasmo e paro em cada palavra. Forço o raciocínio para seguir cada som ao pormenor. Não é todos os dias que as pessoas se viram do avesso para nós. Como é que ele é capaz? Faz-me lembrar uma criança. O sorriso aberto e sincero, olhos brilhantes, a inquietação do corpo e a espontaneidade. Acho que a sua verdade tornou-se até palpável. Acordou com o coração na boca. “- Sabem, andamos todos distraídos!” Arrepiei-me com a convicção do seu tom de voz e dos punhos cerrados. Descontrai. Olha lá para fora. Pensa. Perde-se numa qualquer paisagem que não consigo acompanhar. Volta. “- Os dias passam, e passam todos iguais!” Mas o vazio da sala permaneceu. As mãos mostravam, freneticamente, o alheamento em cada traço de pensamento que as canetas arrastavam pelas folhas. Mais bocejos. “- Mas eu penso. Estou a pensar em tudo isso!” Eu queria ter-lhe dito. Queria ficar também de pé e que cerrássemos, juntos, os punhos. Sorrir. E dizer-lhe que há um dia em que os bocejos farão o coração saltar da boca.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Depois de um dia longo, no regresso a casa, lentamente, sinto o ar gelado na face e admiro a cidade apressada. Aconchego as mãos por entre o cachecol e tenho a certeza que não sou a pessoa mais feliz do mundo. A pessoa com mais sorte. A pessoa mais especial. Afinal não é assim tão fácil segurar os sonhos realizados.

Não quero que me penses a cada segundo nem que me recordes (sempre) antes de adormecer. Mas queria que lembrasses os contornos do meu sorriso de todas as vezes que lês o meu nome num livro.

domingo, 28 de fevereiro de 2010


- Queria tanto ser princesa...
- Para quê?
- Para poder voar.
- As princesas não voam!
- Faz de conta.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Texto antigo =`)

Trago a cruz sempre no bolso. Sempre no bolso uma história interrompida. Estava sol, o chão quente, e tu, de mãos fechadas, a segurar a nossa história. Agora interrompida. No bolso. No bolso a carrego para todo o lado, nas minhas mãos, apertadas, seguro-a junto à saudade. Que vem. Vem e teima em ficar junto de um pedaço de memória lúcida que me cega o caminho. Hoje está tanto frio aqui. Tenho o pijama colado ao corpo de tanta ansiedade e insónias. O cabelo desgrenhado e covas negras no lugar dos olhos. E tenho, tenho o olhar preso ao texto que lhe dedica. A ela. Está feliz. Essa felicidade que me mata porque pago por ela. Melhor assim. Mania a minha de pensar pelos outros. Forçar a saída de um corpo desejado. Gosto de o ver feliz mas odeio-a por isso. Não consigo mais. Ontem estive lá, no lugar onde escolhi viver a história. Agora interrompida. Acabada não. Nunca. O que vive dentro de nós morre connosco. Não morri. Ainda sinto o peso dos dias ausentes e a dor cansada no olhar distante. Ontem estive lá e estavas lá. E eu vi e decorei as tuas mãos fechadas, a segurar a nossa história. Tiro-a do bolso sempre que me deito, e adormece comigo junto da almofada. A nossa história interrompida. Acabada não. Nunca. Repito as palavras e não me canso. És tu nelas. Tu em tudo. Tu repetido pelos cantos das ruas onde passámos. Tu nas noites e nos dias. Tu na minha falta de sono. No meu pesadelo. Na minha culpa. Tu na nossa história interrompida. Acabada não. Nunca.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Mãe


Vens sempre com o sorriso ao colo de um olhar que me vê ainda menina. Trazes o gosto a dias felizes e sol de primavera por entre as frestas de uma vida inteira. Dás-me a eterna satisfação de um coração atolhado de laços e ternuras desmedidas. “-Amo-te tanto.” E as palavras condensam-se num só gesto, um abraço destinado a renascer cada segundo, rendido aos pés de um amor interminável.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Sinto-me a enlouquecer, estou farta das suas jogadas
Faz tudo pra me ver perder, dá as cartas mal baralhadas
Nunca contei a ninguém o jogo das suas acções
Avança colada a mim, ganha espaço com encontrões
Diz palavrões, quer competir, talvez chegar-me aos calcanhares
E um dia vai cair como de um prédio de dez andares
Ele não é um troféu, abranda o passo e faz-te à vida
E para onde quer que vás, leva só bilhete de ida.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Rastejas para o abismo por não veres outra saída, segues todos os sinais de uma postura rendida. Não sabes para onde vais, ouves quem te quer matar, o lenço que te dão para as lágrimas é arma pronta a sufocar. Não duvidas de uma palavra e entras no nevoeiro, e ao som de uma balada levas um tiro certeiro.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Se eu pudesse (8)




"Se eu pudesse ser diferente e mudar por ti
ser o que mereces e manter-me assim
trocar a vida que tenho pela que desejas
e não te encher de lágrimas quando me beijas
ser o teu poeta, o momento que mais sentiste
o teu mais que tudo, quando tudo o resto é triste
Se eu pudesse, era tudo como preferes
mas eu não posso ser tudo aquilo que queres..."

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010


When the day is long and the night, the night is yours alone,
When you're sure you've had enough of this life, well hang on
Don't let yourself go, 'cause everybody cries and everybody hurts sometimes

Sometimes everything is wrong. Now it's time to sing along
When your day is night alone, (hold on, hold on)
If you feel like letting go, (hold on)
When you think you've had too much of this life, well hang on

'Cause everybody hurts. Take comfort in your friends
Everybody hurts. Don't throw your hand. Oh, no. Don't throw your hand
If you feel like you're alone, no, no, no, you are not alone

If you're on your own in this life, the days and nights are long,
When you think you've had too much of this life to hang on

Well, everybody hurts sometimes,
Everybody cries. And everybody hurts sometimes
And everybody hurts sometimes. So, hold on, hold on
Hold on, hold on, hold on, hold on, hold on, hold on
Everybody hurts. You are not alone

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Felicidade!






"Não avalies os bens e os males segundo o critério do vulgo: deves verificar, não donde eles provêm, mas sim para que fim tendem. Tudo o que possa contribuir para a obtenção de uma vida feliz será um bem de pleno direito, já que não pode degradar-se até tornar-se um mal.
Toda a gente, contudo, ambiciona ter uma vida feliz; porque sucede então que quase todos falham o alvo? Pelo facto de se tornar por felicidade o que não passa de um meio para atingir; por isso, quanto mais a buscam, mais dela se afastam. O cúmulo da felicidade consiste numa perfeita segurança, numa inabalável confiança no seu valor; ora o que as pessoas fazem é arranjar motivos de preocupação, é percorrer a traiçoeira estrada da vida ajoujadas de pesados fardos. Deste modo vão-se sempre distanciando cada vez mais da meta que procuram alcançar, e quanto mais se esforçam por atingi-la mais se embaraçam e retrocedem. Sucede-lhes como a alguém que corra num labirinto: a própria velocidade faz perder o norte."