sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Parte V

Procuro as bolachas na cozinha arrumada e arrasto-me até ao quarto. Forço-me a comer e recolho-me nos lençóis. Afinal até gosto deles lavados e agradeço a Deus pelo seu empenho. Ao arrastar o corpo para me aconchegar, sinto as migalhas a arranharem-me a pele. Gosto, fazem-me sentir viva. Quase adormecida, sinto-o a chegar. Semicerro os olhos e vejo-o abrir a porta do quarto tão devagar que o movimento parece causado por uma brisa suave. Fita-me delicadamente. Tenho saudades de o ver sorrir. Aproxima-se e cola um post-it no pacote das bolachas. Fecho os olhos e adormeço. Uma grande festa! A casa era enorme e cheia de gente feliz. Tinha de andar em bico de pés porque não podiam dar pela minha presença. Não sei porquê mas sabia que me expulsariam se me vissem. Estava exausta e ofegante. Nua, desesperava-me para apanhar a roupa que ia crescendo no soalho brilhante. Vestia-me apressadamente mas ela desaparecia no corpo. Esticava os membros exaustos para agarrar uma e outra peça mas, depois de tanto esforço, simplesmente se desfazia e parecia mergulhar pelas frestas da minha pele. E quanto mais isso acontecia, mais eu inchava, e com mais dificuldade me serviam as peças. Mergulhavam todas no meu corpo e senti-me sufocar. Inchei, inchei, inchei, até que. “Voltei! =)”, está escrito no post-it. Claro que voltou. Volta sempre. E volta sempre tão inteiro. Mistura-se em mim sem medo de morrer, de matar, ou de perecermos os dois. Sabem aqueles dias que todos temos, em que nos entregamos a uma árvore, ao céu, ou à formiga que passa? Ele assim se esquecia de tudo à sua volta para somente me absorver.

(...)

Sem comentários:

Enviar um comentário