quinta-feira, 22 de abril de 2010

domingo, 18 de abril de 2010

Não me desfaço em continências, fico com o melhor pedaço
Nem vivo só de aparências, cada linha pode ser traço
Num abraço sou ferro e aço, tenho até olhos nas costas
E quando me vens com propostas eu parto para as apostas
Possuis as raízes expostas, não gostas quando te atiro à cara
Que tens o ego enaltecido por uma doença rara
Que não sara, não vai embora, faz de ti mais do que escravo
Subjugado ao seu poder, domado pela sua lei infinita
De erros crassos e fracassos de uma vivência restrita
Que imita o caos, faz-te falhar em cada atitude fria
Mostras nos passos a imperfeição dessa alma vazia
Que vida é essa, que respiras em pó branco, disfarçada
Que vendes em doses às vidas que caem nessa jogada
Cresces e apareces nos bairros desnorteados
Fazes cair no buraco até os mais preparados
Enches os bolsos com a miséria dos viciados na rotina
E as crianças saem da escola para aprender esta doutrina
São os meninos dos recados, do paraíso alucinado
Compram como quem vai ao pão a um qualquer supermercado
E há os dias de promoção em que fazem o sacrifício
Dão-te a inocência em troca de dez gramas de vício
Em casa não há pão na mesa, comem no lixo da rua
Não há quem se chegue à frente, a polícia não actua
E a desgraça continua, a calamidade aumenta
Já ouço chegar a guerra que, se não entra, rebenta!

sábado, 17 de abril de 2010

Muita gente gostava de me ver cair
De me impedir de avançar neste caminho estreito
Tantos são os que rezam para não me ver sorrir
E que em queda desejam que fracture o pé direito
Rodeiam-me de futilidades, superficialidades ilusórias
Não insiram a minha vida em nenhuma das vossas histórias
Eu quero viver em paz, respirar fundo e chegar alto
Ver-vos assistir ao meu sucesso de cara para o asfalto
Há sempre quem nos prefere ver a pedir do que a subir
Se pudessem até o céu iriam sob nós demolir
Fazer ruir o chão que pisamos, esmagar-nos a consciência
Arrasar todo o bem-estar, desfigurar a nossa essência
Farto-me desta batalha, dão-te a mão, tiram-te o braço
Fazem tudo para te ver fazer figura de palhaço
Trazem o sorriso embrulhado em votos de mau-olhado
Fazem de ti um santuário de pacto do mal sagrado
Por outro lado, há quem nos ame, nos encoraje a sonhar
Quem nos faz adormecer num outro melhor lugar
São estes que me fazem desejar momentos sem fim
Que me obrigam a abrandar e que sempre esperam por mim
Obrigada por enaltecerem o meu quotidiano
E por me darem a conhecer o melhor do ser humano.

quarta-feira, 7 de abril de 2010



Peter Sloterdijk não podia estar mais certo...
O ser humano é aquele tipo de animal que falhou em manter-se como animal. Um erro qualquer deu origem à consciência.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Ele fala dela como quem conta o dia mais feliz da sua vida.
Teresa morreu-lhe nos braços depois de uma luta incansável contra um cancro de mama que se alastrou a outros órgãos do organismo. Era alegre, vivaz, apaixonada pela vida. Tinha em si a beleza triunfante de um coração enorme. Doce, generosa, lutadora. Não a cheguei a conhecer pessoalmente, mas ele carrega-a intacta no sentimento, na memória e no anel que mexe e remexe enquanto a descreve carinhosamente.
Gosto de o ouvir. Sento-me de frente para ele e acompanho, deliciada, cada postura a que as recordações o obrigam.
Hoje vim visitá-lo. É incrível como Teresa vive em cada canto da casa… está tudo intacto. A decoração, os cheiros, os perfumes e os colares na cómoda do quarto. Ao sábado, ele colhe sete margaridas brancas que põe, cuidadosamente, no jarro da mesa de centro da sala de estar, tal como Teresa fazia.
Agora, de pé, encostado à ombreira da porta da cozinha que dá para o exterior, observa vagarosamente o “jardim da Teresa”. Desvia o olhar para a fotografia que segura, como quem a devora. Exerce tanta força nela que parece ter medo que se desfaça por entre os dedos. Respira fundo de olhos bem cerrados e deixa cair uma lágrima que inunda a face de Teresa na fotografia. E num tom de voz absurdamente sossegado, volta-se e diz-me:

“Sabes, às vezes é quando as pessoas morrem que nunca mais deixam de existir.”

Que lindo! *.*

"A minha deusa é alta, esguia e infinita. Tudo nela é grande e ao mesmo tempo perfeito, do tamanho dos olhos ao do coração. Possui uma cintura de vespa e um cabelo farto e despenteado, como tão bem lhe compete e melhor lhe assenta. Como todas as deusas, parece eternamente jovem e reina sobre tudo o que a rodeia sem sequer dar por isso. A minha casa e os nossos filhos respiram o oxigénio dela, um ar puro e adocicado como se dos belos dentes brancos se libertasse um hálito divino e dos olhos imensos caíssem fios de mel que suavizam todos os gestos. A voz é grave, serena e quente, própria dos seres que não são bem deste mundo. Nos dedos imensos e nas mãos grandes adormecem os filhos e o meu coração acalma-se, as cores descansam e às vezes a terra suspende a rotação.
A minha deusa é ainda mais bela por não saber que é uma deusa. Não sabe que todos os dias faz milagres na sua máquina de cozinha, não sabe o jeito que tem para ser mãe, não mede a generosidade com que trata os amigos e os filhos dos outros, não sonha o quanto as pessoas que gostam e precisam dela. Mas há deusas assim, que passam pela vida sem adivinhar o que são, como se fossem iguais às outras mulheres e que encolhem os ombros perante os seus defeitos, numa discrição congénita, quase tímida, quase infantil, desconhecendo o imenso poder que emanam.
A minha deusa é minha e leva dentro dela metade de mim. Quando o nosso filho nascer vou ver-me nele e agradecer-lhe para sempre. Será sempre bela na forma pura como se comove com a tristeza dos outros. Tem pena de ter só dois braços porque sabe que neles não cabe o mundo. Mas caibo lá eu, os meus e os nossos filhos, os pais e irmãos dela e as amigas, uma que ajudou a salvar e a outra que a faz rir e lhe escreve páginas de jornal. Sem saber o que a faz levitar, circula pela casa como uma pássaro e o seu sangue corre nas minhas artérias. Não preciso de rezas nem de altar para a minha deusa, porque se senta todos os dias comigo à mesa e dormimos na mesma cama.
Quero tê-la ao meu lado para sempre, porque sei que nunca vai envelhecer, nunca me vai trair, nunca se vai esquecer de quem gosta dela e nunca vai deixar de ser a melhor cozinheira e a melhor mãe do mundo. E quando os nossos filhos crescerem, quero viajar com ela pelo mundo inteiro e casar muito depressa, num ilha escondida onde só os nossos melhores amigos se vão juntar para a grande festa.
Os homens são como os deuses, nascem e morrem nos braços de uma mulher e eu quero ficar com ela e ver o mundo mudar à volta dela enquanto o tempo passa sem lhe tocar, porque os deuses são eternos e mesmo que um dia tudo acabe, sei que tive a maior sorte do mundo, porque vivi na terra com uma deusa e poucos mortais têm tão rara e melhor sorte."

domingo, 4 de abril de 2010


Apetece-me ir a Paris saltar nas poças de água como se ninguém estivesse lá para ver. Apetece-me deitar-me ao sol de olhos fechados a ouvir o mar. Apetece-me vestir uma roupa leve e fresca, correr descalça e ser feliz num campo cheiro de girassóis e tulipas. Apetece-me levantar as persianas e abrir as janelas, deixar entrar a Primavera ao som de uma música feliz. Apetece-me sentar-me num banco de jardim e dar de comer aos pássaros enquanto aprecio o sorriso da criança que acompanha o movimento das migalhas a caírem no chão. Apetece-me pousar os braços no parapeito e descansar o olhar no infinito das vidas que respiram lá ao fundo, na cidade. Apetece-me tomar um banho de aromas, vestir o pijama e sentar-me no degrau que dá para o quintal a ler um livro, enquanto o ar quente da noite me aconchega. Apetece-me enrolar-me nos lençóis e adormecer abraçada às cores que dás à minha vida. Apetece-me arregaçar as calças e ir para o meio das rochas apanhar lapas, escorregar e rir-me por ser tão trapalhona. Apetece-me sentar-me na areia, mesmo perto do mar, e sentir a água que vem e vai arrastada pela força das ondas incansáveis. Apetece-me deixar-me flutuar numa piscina e respirar fundo toda a calma que me faz leve. Apetece-me regar o jardim e aproveitar a primeira enxurrada de água quentinha que sai da mangueira para molhar os pés e as pernas. Depois andar com os chinelos a escorregarem-me dos pés e ter pretexto para sentir o cimento do passeio aquecido pelo sol teimoso. Apetece-me passear de carro, abrir o vidro e concentrar-me na brisa que me embriaga os cabelos, enquanto a música que passa na rádio me faz sonhar com os mundos e fundos da paisagem que me cerca e que se perde a cada suspiro. Apetece-me acampar. Passar dois dias ao ar livre e ver a noite cair em mim como se não houvesse mais lugar no mundo onde isso acontecesse a alguém. Encostar-me a uma árvore centenária, ouvir o som do riacho que passa ali ao lado, olhar para a lua e sonhar alto, muito para além dela e das estrelas. Apetece-me ser criança, ser ave, ser barco de papel. Coração. Gargalhada. Flor. Sol. Música. Pele. Aroma. Jardim. Paisagem. Apetece-me a vida. Feliz. Apetece-me ser feliz. Apetece-me abraçar-te, sentir-me em paz e entrelaçar a tua vida na nossa eternidade.

sábado, 3 de abril de 2010




Se podia viver sem vocês?
Poder podia, mas não era a mesma coisa!

quinta-feira, 1 de abril de 2010



De que nos valem as palavras e os poemas bem produzidos
Se há mágoa nos nossos actos, em todos os nossos sentidos
Eu sei que erro e sofro muito, não me sei dar a ninguém
Por que raio te amo tanto? ...faço-te sofrer também
Quero o teu bem, e desfaleço, não suporto mais estas horas
De ausência incompreendida nos dias em que demoras
E me devoras o mundo que gira em torno do teu amor
Não parece mas é só esse que me leva toda esta dor.