sábado, 31 de julho de 2010
quinta-feira, 29 de julho de 2010
terça-feira, 27 de julho de 2010
Juro que não vou esquecer...
Nunca vou esquecer o olhar da rapariga que espera o tratamento de radioterapia. Sentada numa das cadeiras de plástico, o homem que a acompanha (o pai?) coloca-lhe uma almofada na nuca para ela encostar a cabeça à parede e assim fica, magra, imóvel, calada, com os olhos a gritarem o que ninguém ouve. O homem tira o lenço do bolso, passa-lho devagarinho na cara e os seus olhos gritam também: na sala onde tanta gente aguarda lá fora, algumas vindas de longe, de terras do Alentejo quase na fronteira, desembarcam pessoas de maca, um senhor idoso de fato completo, botão do colarinho abotoado, sem gravata, a mesma nódoa sempre na manga (a nódoa grita) caminhando devagarinho para o balcão numa dignidade de príncipe. É pobre, vê-se que é pobre, não existe um único osso que não lhe fure a pele, entende-se o sofrimento nos traços impassíveis e não grita com os olhos porque não tem olhos já, tem no lugar deles a mesma pele esverdeada que os ossos furam, a mão esquelética consegue puxar da algibeira o cartãozinho onde lhe marcam as sessões. Mulheres com lenços a cobrirem a ausência de cabelo, outras de perucas patéticas que não ligam com as feições nem aderem ao crânio, lhes flutuam em torno. E a imensa solidão de todos eles. À entrada do corredor, no espaço entre duas portas, uma africana de óculos chora sem ruído, metendo os polegares por baixo das lentes a secar as pálpebras. Chora sem ruído e sem um músculo que estremeça sequer, apagando-se a si mesma com o verniz estalado das unhas. Um sujeito de pé com um saco de plástico. Um outro a arrastar uma das pernas. A chuva incessante contra as janelas enormes. Plantas em vasos. Revistas que as pessoas não lêem. E eu, cheio de vergonha de ser eu, a pensar faltam-me duas sessões, eles morrem e eu fico vivo, graças a Deus sofri de uma coisa sem importância, estou aqui para um tratamento preventivo, dizem-me que me curei, fico vivo, daqui a pouco tudo isto não passou de um pesadelo, uma irrealidade, fico vivo, dentro de mim estas pessoas a doerem-me tanto, fico vivo como, a rapariga de cabeça encostada à parede não vê ninguém, os outros (nós) somos transparentes para ela, toda no interior do seu tormento, o homem poisa-lhe os dedos e ela não sente os dedos, fico vivo de que maneira, como, mudei tanto nestes últimos meses, os meus companheiros dão-me vontade de ajoelhar, não os mereço da mesma forma que eles não merecem isto, que estúpido perguntar
- Porquê ?
que estúpido indignar-me, zango-me com Deus, comigo, com a vida que tive, como pude ser tão desatento, tão arrogante, tão parvo, como pude queixar-me, gostava de ter os joelhos enormes de modo que coubessem no meu colo em vez das cadeiras de plástico
(não são de plástico, outra coisa qualquer, mais confortável, que não tenho tempo agora de pensar no que é)
isto que escrevo sai de mim como um vómito, tão depressa que a esferográfica não acompanha, perco imensas palavras, frases inteiras, emoções que me fogem, isto que escrevo não chega aos calcanhares do senhor idoso de fato completo
(aos quadradinhos, já gasto, já bom para deitar fora)
botão de colarinho abotoado, sem gravata e no entanto a gravata está lá, a gravata está lá, o que interessa a nódoa da manga
(a nódoa grita)
o que interessa que caminhe devagar para o balcão mal podendo consigo, doem-me os dedos da força que faço para escrever, não existe um único osso que não lhe fure a pele, entende-se o sofrimento nos traços impassíveis e não grita com os olhos porque não tem olhos já, tem no lugar deles a mesma pele esverdeada que os ossos furam e me observa por instantes, diga
- António
senhor, por favor diga
- António
chamo-me António, não tem importância nenhuma mas chamo-me António e não posso fazer nada por si, não posso fazer nada por ninguém, chamo-me António e não lhe chego aos calcanhares, sou mais pobre que você, falta-me a sua força e coragem, pegue-me antes você ao colo e garanta-me que não morre, não pode morrer, no caso de você morrer eu
No caso de você e da rapariga da almofada morrerem vou ter vergonha de estar vivo.
António Lobo Antunes, Visão
- Porquê ?
que estúpido indignar-me, zango-me com Deus, comigo, com a vida que tive, como pude ser tão desatento, tão arrogante, tão parvo, como pude queixar-me, gostava de ter os joelhos enormes de modo que coubessem no meu colo em vez das cadeiras de plástico
(não são de plástico, outra coisa qualquer, mais confortável, que não tenho tempo agora de pensar no que é)
isto que escrevo sai de mim como um vómito, tão depressa que a esferográfica não acompanha, perco imensas palavras, frases inteiras, emoções que me fogem, isto que escrevo não chega aos calcanhares do senhor idoso de fato completo
(aos quadradinhos, já gasto, já bom para deitar fora)
botão de colarinho abotoado, sem gravata e no entanto a gravata está lá, a gravata está lá, o que interessa a nódoa da manga
(a nódoa grita)
o que interessa que caminhe devagar para o balcão mal podendo consigo, doem-me os dedos da força que faço para escrever, não existe um único osso que não lhe fure a pele, entende-se o sofrimento nos traços impassíveis e não grita com os olhos porque não tem olhos já, tem no lugar deles a mesma pele esverdeada que os ossos furam e me observa por instantes, diga
- António
senhor, por favor diga
- António
chamo-me António, não tem importância nenhuma mas chamo-me António e não posso fazer nada por si, não posso fazer nada por ninguém, chamo-me António e não lhe chego aos calcanhares, sou mais pobre que você, falta-me a sua força e coragem, pegue-me antes você ao colo e garanta-me que não morre, não pode morrer, no caso de você morrer eu
No caso de você e da rapariga da almofada morrerem vou ter vergonha de estar vivo.
António Lobo Antunes, Visão
domingo, 25 de julho de 2010

Vive atenta aos pormenores. Não bebe álcool e adora arroz doce. Impaciente. Gosta de dar conselhos, mas odeia receber. Só adormece com a televisão ligada, e só dorme virada para o lado direito. Chora quando tem vontade mas nem sempre tem motivo. Preocupa-se em excesso. Adora as manhãs. Magoa-se com facilidade. Dificilmente se irrita. Herdou, do pai, a teimosia. Da mãe, o perfeccionismo e o tom alto de voz. Passa a vida a cozinhar e tem a mania das limpezas. Valoriza a simplicidade nas pessoas e precisa que lhe dêem atenção. “Amor e uma cabana” fazem-na sorrir. Acredita no amor à primeira vista. Não gosta quando não se esforçam e afasta-se se não se sente valorizada. Teimosa e persistente, odeia quando a contrariam. Nunca se dá, totalmente, a conhecer. Odeia a cobardia e a falta de sinceridade. Ama crianças e sente o mundo como uma bola pequenina, no meio delas. É alegre, vivaz, e guarda sonhos com os quais ninguém a identificaria. Não se afeiçoa a objectos mas tem um especial. Deixa sempre algo por dizer. Nada materialista, aprecia a natureza e as coisas mais simples da vida. Facilmente conhece as pessoas apenas as observando. Percebe quando lhe mentem mas raramente o demonstra. Ouve as palavras mas espera pelos gestos. Precisa, muitas vezes, que lhe percebam os silêncios. Encerra em si a complexidade de um ser maior do que ela. E, acima de tudo, ama de verdade aqueles a quem diz isso.
sábado, 24 de julho de 2010
quarta-feira, 21 de julho de 2010

Só quando estou na desgraça percebo quem tem valor
Vejo quem chega a correr para fazer o seu melhor
Quem me puxa o cobertor quando o mundo me traz frio
Quem carrega o sol e a alma para o meu lado sombrio
E o meu sorriso vadio espreita o amor que se agiganta
Por aqueles que vêm tirar-me a corda da garganta
O que mais neles me encanta é darem-se por completo
Se perco o rumo da viagem eles são o meu trajecto
Não há soneto nem prosa solta que me faça acreditar
Que sem eles meu coração seria bom para morar
Sempre que os vejo chegar, o céu sorri de vaidade
E num segundo o meu olhar salta para fora da grade
A ansiedade vai embora e a poesia estreita-me os laços
O corpo sente o afecto a preencher-me os espaços
E dou passos para a vitória, sinto-me a pisar o risco
Sem medo de mudar a história, dão-me a mão e eu persisto
Insisto na caminhada, vou vencer esta batalha
Com vocês na mesma estrada a minha força não falha
Sempre por perto, de braços estendidos, o vosso amor faz-me voar
Viajo pelos lugares escondidos que encontro no vosso olhar
E sou feliz no vosso colo, pertenço às vossas mãos abertas
Nas palavras de consolo encontro as opções correctas
E de todos os abrigos que o corpo me possa dar
É só nos vossos sentidos que eu encontro o meu lugar.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
sexta-feira, 9 de julho de 2010
terça-feira, 6 de julho de 2010
Mãe (A Mulher que Eu Amo)
A mulher que eu amo
É um abraço sem fim
E quando ri para mim
Afasta-me do cansaço
A mulher que eu amo
É tão doce e tão pura
Que no seu olhar, a ternura
Me beija num forte abraço
A mulher que eu amo
Tem a beleza infinita
Que não pode ser descrita
Pela palavra mais bela
A mulher que eu amo
Vive em chama na minha vida
E nunca será esquecida
Porque a minh`alma é dela
A mulher que eu amo
Tem estrelas no sorriso
E devolve-me o paraíso
Sempre que chego ao fundo
A mulher que eu amo
Tem a alegria à janela
E eu amo tanto ela
que se for preciso, por ela
Eu vou ao fim do mundo!
É um abraço sem fim
E quando ri para mim
Afasta-me do cansaço
A mulher que eu amo
É tão doce e tão pura
Que no seu olhar, a ternura
Me beija num forte abraço
A mulher que eu amo
Tem a beleza infinita
Que não pode ser descrita
Pela palavra mais bela
A mulher que eu amo
Vive em chama na minha vida
E nunca será esquecida
Porque a minh`alma é dela
A mulher que eu amo
Tem estrelas no sorriso
E devolve-me o paraíso
Sempre que chego ao fundo
A mulher que eu amo
Tem a alegria à janela
E eu amo tanto ela
que se for preciso, por ela
Eu vou ao fim do mundo!
sábado, 3 de julho de 2010

Só depois do amor
O olhar se afasta
Perdes o vigor
Ao sentir que a dor
Pelo corpo alastra
Essa voz no cais
De corpo ancorado
Quer saber se vais
Dar-me um dos finais
De sonho encantado
E adormecido
Sob o mar errante
Vem o sonho altivo
Que de tão perdido
Faz-te ser distante
Um dia, quem sabe
No horizonte em flor
Pousarei de leve
A vida que é breve…
Só depois do amor.
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