segunda-feira, 30 de novembro de 2009



Eu escrevo pra não falar, porque se falo é a dobrar
Cada verso é um resumo de uma tese militar
Não cuspas para o ar, se o fizeres, corre depressa
Ouvir línguas banais, acredita, é o que mais stressa
Rimar só por rimar é remar em maré baixa
E se o que queres é navegar, deixa as manias na caixa
Eu não rimo à toa, é o coração quem comanda
E se acaso te enjoa, eu alugo-te a varanda
Não estou aqui pr` agradar nem pra fazer boa figura
Faço isto para tirar as melhores sombras da rua.

domingo, 29 de novembro de 2009

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

Manuel António Pina - "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma, é Apenas um Pouco Tarde"

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Demasiada Abstracção Afoga o Espírito

Certa porção de abstracção melancólica pode ser tão útil como um narcótico em dose discreta, porque é uma coisa que adormenta as febres, às vezes renitentes, da inteligência em acção, e faz nascer no espírito um vapor brando e fresco, que corrige os contornos demasiado ásperos do pensamento puro, enche numa ou noutra parte lacunas e intervalos, liga os conjuntos e esfuma os ângulos das ideias. A muita abstracção, porém, submerge e afoga. Infeliz do operário de espírito que se deixa cair inteiramente do pensamento na abstracção. Julga que facilmente tornará a subir, e diz consigo que, afinal, ainda que não suba, é o mesmo. Erro!
O pensamento é o labor e a abstracção a voluptuosidade da inteligência. Substituir uma coisa por outra é confundir um veneno com um alimento.

Victor Hugo - 'Os Miseráveis'

"Nunca serei velho, a velhice terá sempre mais 15 anos do que eu!"

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

E agora? Entendes-me, miss flaminga . ?

Errata

Onde se lê poesia deve ler-se mundo
Onde se lê palavras deve ler-se pessoas
Onde se lê eu deve ler-se multidão
Onde se lê Nádia deve ser com certeza um copo meio cheio.




Cheira-me a Manuel de Freitas (cheira-me mesmo a Manuel de Freitas).




Todo o conteúdo do blog é salvo pela letra de imprensa. Amém.

II

Quando alguém arranca à força o que escreve, nota-se-lhe logo as nódoas negras.
As palavras são como lentes sujas: limpa ou deita fora.

I

Se a linguagem não admite ambiguidades, o contexto pode envenenar-nos. É por isso que eu gosto de poesia, gosto da sombra das formas indefinidas das palavras. E de as ler de olhos fechados.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Memórias...



“Gostas mesmo dela”, disse-me a Tânia.
Ela não sabe é do resto. Não sabe das vezes em que adivinhavas o que eu estava a pensar. Das vezes em que ficavámos no sofá a madrugar. Das vezes em que tomávamos chá antes de deitar e das conversas até adormecer. Das vezes em que almoçávamos juntas e de todas as eternidades que demoravas a terminar. Não sabe do arroz salgado e empapado nem dos rissóis vegetarianos, das horas perdidas de quem falta as aulas em troca de duas de treta, das cerejas que comemos a caminho do liceu, de me abrigares da chuva e de todos esses pequenos pormenores que nos preenchiam os instantes.
Das visitas ao hospital e do choro na ausência, da companhia para a escola, das escadas e dos rumores e amores.
Não sabe dos choros, das confissões, das fotografias, dos ciúmes. Não sabe da correria em que me vestia quando recebia aquela mensagem “preciso de ti”, das dedicatórias, das letras das músicas e das viagens.
Os teus stresses e as minhas angústias. Os abraços, as chocopilows e cerelac.
A Tânia não sabe é do resto. Não sabe das gargalhadas nem das fantasias. Do teu jeito simples e terno. Das tuas lutas, dos dissabores, do carioca de limão numa noite fria, das 19h da despedida. Não sabe que falavas pelos cotovelos e que precisavas sempre de meia hora para comer um pão (com queijo). De que te sentavas com os pés em cima da cadeira e que guardavas o nokia 3330 no bolso direito das calças. De que só usavas calças largas e sapatilhas. Não sabe que estavas sempre a mexer nas feridas, que caminhavas a olhar para o chão e usavas sempre o cabelo solto. De que odiavas correr e sentir o coração apressado. Não sabe das tantas vezes em que me apertavas a mão para dizer alguma coisa e que esfregavas o queixo e a testa vezes sem conta nos dias mais melancolicos ou stressantes. Que preferias filmes de comédia a filmes de terror. Das vezes em que eu mentia só para te sentires melhor “não estás nada branca, estás normal...”.
Não sabe que me mordias ou lambias a cara para me irritar, das conversas nos cadernos de psicologia, das vergonhas na aula de inglês.
A Tânia tinha razão quando por outras palavras dizia que praticamente eu tinha o teu nome escrito na testa.
E a Tânia nem sabia do resto. Hoje, o resto, é apenas o resto que a Tânia não sabia.

Rir - ainda - é o melhor remédio xD

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Good Charlotte - The Truth



Não sei como nunca cá estiveste e hoje, partindo, me deixaste mais de ti do que o que de ti me deste.
É a presença da vontade de te ter lido os olhos e a respiração.
O odor da tua ida a fracassar-me a paz da ideia de que ainda temos tempo. A dor que pesa no conformismo que te deixou nunca viver para mim.
Já não tenho tempo.
Levaste o tempo que me devias e que não reclamei. O tempo que chorei baixinho por entre sangue atraiçoado, e a indiferença.
O tempo voa e o tempo morre. E nós nascemos e morremos mesmo antes de nascer.
Lamento não ter um lugar onde te arrumar a não ser nestas últimas palavras.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

*...eu já sabia.


Um “já sabia” atraiçoado como quem não sabe que sempre soubera. É a protecção involuntária dos sentidos, um engolir a seco o espanto inteiro.
Se já sabias, que não te custe os joelhos esfolados e o orgulho debaixo dos pés.
Hoje eu não sei, só sei que se for amanhã*

terça-feira, 3 de novembro de 2009

A folha



Deixo a porta entreaberta e sento-me no degrau, aquele degrau.
O sol quase me chega aos pés e a luz alaranjada cobre-me a pele com desenhos de calmaria.
A vida suspira ao meu ouvido e sopra um silêncio que me arrasta os cabelos pela cara embaciada. Enquanto abraço os joelhos, batem no peito lembranças que a brisa guarda.
Sinto o calor do chão a aconchegar-me.
É tudo tão distante nesta hora que deixo o mundo fugir-me das mãos e cerro os punhos para que mais nada se intrometa...entre mim e um fim de tarde.
Cai uma folha ao meu lado.