“Gostas mesmo dela”, disse-me a Tânia.
Ela não sabe é do resto. Não sabe das vezes em que adivinhavas o que eu estava a pensar. Das vezes em que ficavámos no sofá a madrugar. Das vezes em que tomávamos chá antes de deitar e das conversas até adormecer. Das vezes em que almoçávamos juntas e de todas as eternidades que demoravas a terminar. Não sabe do arroz salgado e empapado nem dos rissóis vegetarianos, das horas perdidas de quem falta as aulas em troca de duas de treta, das cerejas que comemos a caminho do liceu, de me abrigares da chuva e de todos esses pequenos pormenores que nos preenchiam os instantes.
Das visitas ao hospital e do choro na ausência, da companhia para a escola, das escadas e dos rumores e amores.
Não sabe dos choros, das confissões, das fotografias, dos ciúmes. Não sabe da correria em que me vestia quando recebia aquela mensagem “preciso de ti”, das dedicatórias, das letras das músicas e das viagens.
Os teus stresses e as minhas angústias. Os abraços, as chocopilows e cerelac.
A Tânia não sabe é do resto. Não sabe das gargalhadas nem das fantasias. Do teu jeito simples e terno. Das tuas lutas, dos dissabores, do carioca de limão numa noite fria, das 19h da despedida. Não sabe que falavas pelos cotovelos e que precisavas sempre de meia hora para comer um pão (com queijo). De que te sentavas com os pés em cima da cadeira e que guardavas o nokia 3330 no bolso direito das calças. De que só usavas calças largas e sapatilhas. Não sabe que estavas sempre a mexer nas feridas, que caminhavas a olhar para o chão e usavas sempre o cabelo solto. De que odiavas correr e sentir o coração apressado. Não sabe das tantas vezes em que me apertavas a mão para dizer alguma coisa e que esfregavas o queixo e a testa vezes sem conta nos dias mais melancolicos ou stressantes. Que preferias filmes de comédia a filmes de terror. Das vezes em que eu mentia só para te sentires melhor “não estás nada branca, estás normal...”.
Não sabe que me mordias ou lambias a cara para me irritar, das conversas nos cadernos de psicologia, das vergonhas na aula de inglês.
A Tânia tinha razão quando por outras palavras dizia que praticamente eu tinha o teu nome escrito na testa.
E a Tânia nem sabia do resto. Hoje, o resto, é apenas o resto que a Tânia não sabia.

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