terça-feira, 3 de agosto de 2010

Parte II

Arrasto as costas pela parede e deixo os joelhos tocarem no queixo, enquanto as mãos devoram os dedos dos pés e o corpo balança. “- O que precisas para seres feliz?” Respondi-lhe com meia hora de soluços. Nunca ninguém se tinha preocupado com isso (nem mesmo eu). Quando acordei, ainda no chão, tinha o seu sorriso meigo junto à minha cara. Ficava tão impressionada com aquela entrega que preferi nem me mexer com medo de a estragar.
Costumava convencer-me a ir correr pelo paredão e, sempre que me via a ficar para trás, esperava, dizendo, por amor, que abrandara por cansaço. E eu fingia acreditar para não intimidar aquela estima. Cansada, bastava deixar cair o corpo no sofá para encontrar o aconchego dos seus braços. Ele ficava, só para me ver dormir. Nunca me achou louca por escrever nos cortinados. Sabia que, nos dias de sol, as paredes se enchiam de palavras gigantes que me faziam sentir bem, por saber que os meus ecos cresciam também noutro lugar. Penteava-me o cabelo e obrigava-me a lavar a cara. Não comentava os pés no tablier e, no sinal vermelho, esticava o braço para a pala de sol do meu lugar e abria o espelho. Lembro-me de me arrastar pelo banco abaixo para não me arrepender de ter dado passos para lá da porta de casa.

(...)

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