“Carpe Diem” amargava-me os sentidos. Sempre achara que temos tantos dias que não faz mal escapar-nos um de vez em quando. Farto-me dos seus sermões mas sinto a sua falta quando não está presente para me aquecer o chá. Os olhos abrem-se, o banho corre. Sufoco ao sentir os poros alagados e, numa expressão angustiada, inalo o ar que entra na boca por entre os pingos de água. Ele passa o sabonete pelo avesso das minhas mãos e eu fecho-as, como faço sempre que me sinto envergonhada. Diz-me para parar de enganar a natureza, baptizando-lhe os medos, e sinto os meus olhos a incharem. Larga o sabonete e abraça-me, e eu deleito-me na precisão de, como nas pausas, ele me descobre. Enrola-me numa toalha e pergunta-me pelos pijamas lavados. Ouço os seus passos apressados tropeçarem na imundice que pesa no chão sujo e chega com uma roupa a cheirar a fresco. Encosta a porta e afasta-se. Sabe sempre levar-me ao peito a vontade de respirar sozinha, de olhos abertos, um pouco mais. Embrulhada no sofá, sinto-o a entrar na sala. Traz-me o chá. E penteia-me o cabelo. Acho que o faz porque me acalma, ou por ser o único momento em que me entrego feliz.
(...)
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