Quando acordei, assaltada por um arrepio frio, reparei na janela aberta e no dia cinzento que se enamorava das frestas da persiana mal corrida. Ele deixou um bilhete na mesa de centro: “Volto amanhã”. Estranhei o gesto pois sabia que voltava sempre. Não o senti partir, e temo que esse “amanhã” seja outro que não hoje, longe demais. Porquê o bilhete? Achar-me-ia demasiado perdida para acreditar que voltaria? Deixar-mo-ia para se obrigar a ver-me, de novo, os olhos lamacentos e as mãos fechadas? Pousei o bilhete lentamente como se tivesse medo de o acordar, e vi o meu reflexo no vidro da mesa: tenho o cabelo despenteado. E acrescentei no bilhete: “Fazes-me falta”. Não estou louca mas sinto-me sê-lo, agora que vejo o chão da casa livre de porcarias e os lençóis do quarto me cheiram a sabão. Antes de partir deve ter apanhado a roupa espalhada e arrependo-me de não ter sido eu a apanhar as cuecas sujas de sangue. Sinto-me mesmo a enlouquecer. Há agora um grande contraste com o estrago dentro de mim. O aspecto limpo e arrumado assombra-me o estado de espírito. Não me sinto encaixar na minha casa e transbordo de transtorno. Ele não devia…
(...)
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