Deixei a terapia por não suportar o tom de voz de “vizinha bem-disposta” da mulher que me invadia a vida. “-Eu estou aqui. – Faz-me sentir ainda mais louca. Como quer que acredite que pensa em mim quando, na realidade, não posso estar consigo quando preciso? Está aqui por dinheiro. Deve ter a sua mansão branca, o cão que a acompanha enquanto faz bolos para a chegada dos filhos, janta sempre à mesma hora e vai ao cinema com o seu marido para arejar, só porque é saudável. A sua vida deve ser tão perfeita que, de vez em quando, até tem os seus problemas. O que faço eu aqui? Nunca caberei na sua vida. Deve estar treinada para se distanciar. Sabe o que tenho feito, sabe? Durmo! Não tomo banho há 3 dias e quando me visitam, lavo-me aos bocados, se tiver forças. O meu pijama tem nódoas dos tempos em que me alimentava e vive colado ao meu corpo pelo suor do vazio. E sabe o que vou fazer a seguir? Vou bater com a porta que abafa este consultório infernal, entrar no carro e só parar na porta do prédio. Subirei pelas escadas porque a merda do elevador está avariado e, cheia de pena de mim, abrirei a porta aos vómitos e correrei para a retrete. Com ainda mais pena, desmaiarei o corpo sob o chão gelado e adormecerei imunda.”
(...)
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