terça-feira, 2 de março de 2010

Sala de aula quase vazia. O reflexo do sol a subir aos poucos pela parede. Amanhecer. O ambiente abafado e o barulho de bocejos aleatórios. Sono. Um discurso brilhante. Um génio do coração. Um sorriso incapaz de deixar indiferente uma qualquer alma atenta. Eu. Sarrabiscos nas folhas dos cadernos. Alheamento. Olhos cansados, pousados nas folhas. Eles. Pasmo e paro em cada palavra. Forço o raciocínio para seguir cada som ao pormenor. Não é todos os dias que as pessoas se viram do avesso para nós. Como é que ele é capaz? Faz-me lembrar uma criança. O sorriso aberto e sincero, olhos brilhantes, a inquietação do corpo e a espontaneidade. Acho que a sua verdade tornou-se até palpável. Acordou com o coração na boca. “- Sabem, andamos todos distraídos!” Arrepiei-me com a convicção do seu tom de voz e dos punhos cerrados. Descontrai. Olha lá para fora. Pensa. Perde-se numa qualquer paisagem que não consigo acompanhar. Volta. “- Os dias passam, e passam todos iguais!” Mas o vazio da sala permaneceu. As mãos mostravam, freneticamente, o alheamento em cada traço de pensamento que as canetas arrastavam pelas folhas. Mais bocejos. “- Mas eu penso. Estou a pensar em tudo isso!” Eu queria ter-lhe dito. Queria ficar também de pé e que cerrássemos, juntos, os punhos. Sorrir. E dizer-lhe que há um dia em que os bocejos farão o coração saltar da boca.

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