domingo, 17 de janeiro de 2010



As ondas embatem com toda a sua força nas rochas. É o mar diante de mim, com o seu poder tão perfeito, com a sua simplicidade tão inexplicávelmente bela.
Ao longe, um vulto. Alguém sentado nas rochas. Alguém, talvez, absolutamente estarrecido com tal sublime paz.

Sento-me ao lado dela. Tem mais de o dobro da minha vida e a face marcada de tantas recordações. Estão dois cães ao seu lado, deitados, sossegados, como quem vivesse no meio das rochas desde sempre.
Tem o olhar distante. As mãos entrelaçadas e os ombros caídos revelam-me a saudade. Está tão ausente. Os olhos dela absorvem o momento como quem nunca mais vai estar naquele lugar, ou como se a paisagem amanhã não fosse a mesma. Como quem quer decorar cada traço, cada movimento, cada ruído, cada transformação.
Parece estar isolada do mundo. Tão concentrada nos seus pensamentos olha para o horizonte como se lhe devolvesse o passado. Eu sei que a sua postura tem nome. Alguém, alguém que partiu, ou alguém que sem partir, lhe deixou menos que nada. Noto-lhe as mãos gastas, suadas. No rosto, as rugas da tristeza, as feições mal contidas de uma vida a meio fôlego.
De vez em quando, desentrelaça as mãos e leva a direita ao peito. Agarra um pêndulo. Uma fotografia a preto e branco, parece antiga, e gasta. Gasta. G-a-s-t-a. Ou pelo tempo que lhe passou, ou pela mão dela, salgada pelo vento.

Sinto os meus olhos aguados. Ela faz-me temer. E tremer.
Ela traz ao peito uma saudade. E eu trago uma saudade que não me cabe no peito.

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