Uiii sol na cara, sabe-me a manhã de domingo e cheira à minha mãe. Lá está ela de roupão, a subir os estores. Calço à pressa os chinelos do Mickey que o Rique (mano mais velho) me deu no Natal e corro para a sala para ver os bonecos na televisão. Atiro-me para o sofá enquanto como o meu pão com manteiga de amendoim (ou manteiga de amendoim com pão).
Os manos (Nuno e Rique) estão na cozinha a fazer a sua cafeteira de leite com cacau e pão com manteiga. Vou aproveitar para ver o Babar na televisão antes que eles comecem a ajudar a mãe nas limpezas e me tirem da sala para aspirarem o chão com aquele aparelho tão barulhento.
Oh o Babar zangou-se com o Cornélius por causa das flores que ele mandou Poutifour pôr no jardim...que chatice! Vou mas é brincar com as minhas pessoas de plástico e mudar a peruca e as pernas daquela barbie que o pai me deu nos anos.
Não vejo as horas passarem e... “PARA A MESAAAA!” grita a mãe porque o Nuno está a dar a ouvir aos vizinhos o novo disco de vinil dos “The Police”.
Nham bife com puré, e a mãe até partiu o bife aos pedacinhos e aconselhou-me a comer tudo...hmm cheira-me ao gelado de natas que ela faz com pedacinhos de bolacha maria!
A mana atrasa-se sempre para a mesa. Os banhos dela demoram três episódios do Babar e ainda assim acho-a sempre tão desmazelada...a mãe não devia deixar que ela andasse com aquelas calças tão rotas no rabo.
Anseio para que chegue a hora do lanche. Aos domingos faço um piquenique com duas amigas vizinhas. Eu levo sempre as minhas bolachas em forma de animais e os iogurtes com pedacinhos de pêssego . Vamos para o quintal e lanchamos alegremente, rindo-nos sob a toalha, a nossa toalha das cerejas rosa.
- Não me lembro como nos conhecemos mas relembro como éramos. O cabelo liso pela cintura da Patrícia, o seu riso estridente e os olhos pequeninos; as ondulações acastanhadas do cabelo da Joana, o seu olhar ternurento e as sapatilhas de verniz cor-de-rosa; e o meu cabelo negro normalmente separado por duas tranças com dois totós coloridos nas pontas, da teimosia e dos vestidos de golas enormes.-
Por falar em cabelos, lá na escola os meninos andam cheios de piolhos, a mãe teve de cortar o cabelo da mana à rapaz. Dizem que eu não apanhei, mas finjo ter comichão aqui e ali porque gosto da atenção da minha mãe enquanto me revista a cabeça.Estou a adorar a escola. A minha mãe leva-me e vai-me buscar com toda a alegria, e para minha satisfação, traz-me um brinquedo que eu ponho logo na cestinha de palha que levo sempre comigo. Nos entervalos brinco com a Adriana, a minha melhor amiga. No início não gostava dela porque me puxava os pêlos dos braços a brincar e magoava-me, mas agora dámo-nos bem. Lutámos as duas contra a vontade da professora para deixarmos de ser canhotas, e divertimo-nos com isso.
De manhã não tenho escola, vou para o mercado com a mãe brincar com o Pedro. É meu primo afastado mas somos como irmãos. Ele é mais novo dois anos. Na semana passada ensinei-lhe os números até 10, sempre que aprendo algo novo ensino-lhe, e já combinamos para sábado ele ir lá para casa aprender algumas letras. Estou a levar isto tão a sério que o pai e a mãe até me deram um quadro de giz para brincarmos.
Quando não tenho o Pedro aos sábados, acampo na sala. A minha mãe põe-me um cobertor em cima de mesas e cadeiras preso por molas, e eu finjo que moro ali. Esvazio o quarto e faço da sala a minha cidade.
Lá no mercado dão-me muitas coisas, as senhoras são tão minhas amigas que me dão chorões, caminhas, carrinhos, roupas de bebé a sério, e a minha mãe até me compra fraldas de recém-nascidos para eu usas nas minhas bonecas! Vocês têm de ver o meu bebé, chama-se “Pilinhas”. A minha mãe comprou-mo nas festas aqui da freguesia, é um nenuco menino e até vinha com a fitinha à volta da barriga como os bebés na maternidade. Dou-lhe banho todos os sábados no bidé, e o Pedro às vezes até ajuda.
O Rique sempre que me apanha tortura-me com cócegas, o Nuno é mais sossegado. É ele que cede sempre aos meus esforços de que alguém filme as festinhas lá da escola.
Quando estou de férias vou para o mercado ou para casa da Don`Antila brincar com o Jorge. Ele é adulto, filho mais velho da Don`Antila, mas leva-me a passear e vamos sempre ao Jardim D. Fernando dar pão duro aos patinhos que vivem lá numa gaiola gigante.
No mercado também me divirto muito. A Armanda e a Esaura dão-me sempre a mim e ao Pedro uma saquinha com alguns legumes que vendem às pessoas, para fazermos comida a brincar. Temos uma casinha debaixo da banca da minha mãe e com os caixotes das flores fazemos camas. Há poucos dias adormecemos lá e pusemos as pessoas do mercado em grande algazarra à nossa procura.
Quando o Pedro fica em casa, a Tia Tina leva-me a passear no carrinho de carga, quando vai entregar encomendas de fruta e legumes aos restaurantes. Para mim é uma aventura e passo o dia nisto. Quem me dera ter força para ela experimentar também um bocadinho.
Às vezes a Andreia, que vai com a tia que vende brinquedos e coisas de gente grande para a feira, também brinca comigo. Adoramos fazer do corrimão das escadas um escorrega, mas a mãe ralha comigo porque tem medo que eu caia. Só paramos quando a senhora das gomas chega. Corro apressadamente em direcção à minha mãe que tira do avental a moeda do costume para eu ir comprar as pulseiras comestíveis e as saquetas daquele pó que estala na língua.
Depois a Andreia e eu sentavamo-nos nos bancos do largo da feira e contavamos piadas.
Lembro-me dela a tapar a boca com as duas mãos, de ficar muito vermelha e de me implorar que eu parasse de contar piadas porque ela já não conseguia respirar.
Às vezes iamos até à biblioteca municipal e pelo caminho parávamos no jardim. Ficávamos a olhar para as senhoras jardineiras, e eu dizia-lhe frequentemente que eu ainda havia de morar no meio de um jardim de reis e raínhas, quando fosse crescida. E que a levava comigo. Lembro-me de lhe dizer “vamos jogar ao rei manda” e de eu querer ser sempre o rei. Lembro-me de tanta coisa. Dela me convencer a brincar às cabeleireiras e de eu lhe dizer sempre para não cortar a sério. Ela dizia-me que era a brincar e mandava-me virar para a frente: “vira-te para a frente senão não brinco mais contigo”. E eu virava-me para a frente. Ela cortava-me o cabelo como o das princesas e eu agradecia-lhe porque ficava mais bonita.
O tempo passou. Ainda tenho a mesma morada...mas a pequenez ficou para trás. O mercado já não mora no mesmo lugar, a Andreia e o Pedro também não. A Andreia casou-se, e o Pedro nunca mais vi. Nem a Biblioteca Municipal é a mesma.
A Tia Tina teve uma paragem cardíaca há duas semanas e só a vejo quando passo pelo mercado novo. Ela ainda lá trabalha mas já não pode com o carrinho de carga, nem comigo.
Nunca mais vi a senhora das gomas e hoje quem ocupa o mercado de fantasias são os netos da Armanda e da Esaura.
Muitas vezes dá-me vontade de ir procurar as senhoras jardineiras. De acordar cedo para ver o Babar e fazer piqueniques nas tardes de domingo. Vontade de voltar a ver o “Pilinhas” e dar-lhe banho no bidé com o sabonete de glicerina laranja, todos os sábados.
Tenho a ânsia constante de voltar à infância e dizer: Vamos saltar à corda. Vamos jogar aos pais e aos filhos. Vamos brincar com plasticinas. Vamos fazer casinhas para as bonecas. Vamos cantar ao microfone.
“Venham brincar comigo senão...nunca mais sou vossa amiga.”
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