Escuresse, o sol quase me chega aos pés e a luz alaranjada cobre-me a pele com desenhos de nuvens desfeitas.
Sussuro os passos ao mesmo tempo que me dou conta do eco que faço no silêncio quente da rua. Sento-me num canto do banco para acreditar que alguém se senta comigo, e conto-lhe os meus segredos enquanto o mar me olha entre suspiros.
“- Sabes, a minha vida é como uma onda gigante, leva-me e traz-me por entre tempestades e calmaria. Há dias em que esses balanços me embalam e me enlaçam num respirar calmo e satisfeito, mas há outros em que não. Dias em que qualquer mudança, qualquer vai-vem me sabe a tonturas e calafrios de medos e incertezas.
Às vezes (muitas), perco-me nos papéis e folhas e livros e fotos e memórias e caras e choros e risos e gritos e... é aí que me perco.
Deixo-me escorregar pela parede até abraçar os joelhos e fecho os olhos para não ver um passado não ultrapassado que me enlouquece. Fico ali parada com uma expressão que não conheces, à espera que alguém quebre o silêncio.
Mas continuo sempre a ser só eu ali, com aquele gesto sombrio de chuva no olhar e nevoeiro no peito.
Sentes as minhas mãos suadas e a pele escorregadia? Vês o fosco dos olhos, as pernas trémulas e o coração apavorado?
Não fiques espantado... só guardo segredo porque me assustaria ainda mais ver o mundo pensar que me compreende"
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